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Transplante de fezes: o que é, para que serve e como é feito

Revisão clínica: Dr. Antonio Carlos Moraes
Gastroenterologista
janeiro 2023

O transplante de fezes é uma forma de tratamento que permite transferir fezes de uma pessoa saudável para outra pessoa com doenças relacionadas ao intestino, especialmente a colite pseudomembranosa, provocada pela infecção pela bactéria Clostridium difficile. Além disso, o tratamento também parece ser promissor no tratamento de outras doenças, como síndrome de intestino irritável, obesidade e, até, autismo.

O objetivo do transplante fecal é regular a microbiota intestinal, que é o conjunto de inúmeras bactérias que vivem naturalmente no intestino. É importante que esta microbiota seja saudável, através de uma alimentação rica em fibras e evitando-se o uso de antibióticos desnecessariamente, já que ela influencia não só na saúde intestinal, mas pode ter efeitos sobre o desenvolvimento de doenças imunes, metabólicas e neurológicas.

Veja o que pode causar desiquilíbrio na microbiota intestinal e como evitar que isso aconteça.

Imagem ilustrativa número 1

Para que serve

O transplante fecal pode ser útil para o tratamento de diversas doenças, como:

1. Colite pseudomembranosa

É a principal indicação para o transplante fecal, sendo caracterizada por uma inflamação e infecção do intestino pela bactéria Clostridium difficile, que infecta, principalmente, pessoas hospitalizadas em uso de antibióticos, já que ela aproveita a eliminação das bactérias intestinais saudáveis para se instalar.

Os principais sintomas da colite pseudomembranosa são febre, dor abdominal e diarreia persistente, e o seu tratamento, geralmente, é feito com antibióticos como Metronidazol ou Vancomicina. Entretanto, nos casos em que a bactéria é resistente, o transplante fecal é comprovadamente efetivo para conseguir reequilibrar rapidamente a flora intestinal e eliminar a infecção.

Saiba mais detalhes sobre o diagnóstico e tratamento da colite pseudomembranosa.

2. Doença inflamatória intestinal

A doença de Crohn e a retocolite ulcerativa são as principais formas de doença inflamatória do intestino, e, apesar de não se saber exatamente o que as causa, sabe-se que, além da influência do sistema imune, pode haver ação de bactérias pouco saudáveis no intestino para o desenvolvimento destas doenças.

Assim, a realização de transplante de fezes pode ser eficaz para melhorar a doença de Crohn ou retocolite ulcerativa, principalmente os casos graves ou de difícil tratamento.

3. Síndrome do intestino irritável

A síndrome do intestino irritável parece ter várias causas, como alterações no sistema nervoso intestinal, sensibilidade alimentar, genética e o estado psicológico, entretanto, tem se mostrado que, cada vez mais, a flora intestinal influencia na sua presença.

Assim, alguns testes atuais tem demonstrado que o transplante fecal é bastante promissor para um tratamento eficaz desta síndrome, apesar de ainda serem necessários mais testes para confirmar a possibilidade de uma cura.

4. Obesidade e outras alterações do metabolismo

Sabe-se que a flora intestinal pode estar alterada em obesos, e há indícios de que estas bactérias modifiquem a forma como o organismo utiliza a energia vinda dos alimentos, e, desta forma, é possível que esta possa ser uma das causas da dificuldade para emagrecer.

Assim, os estudos têm observado que pode ser possível tratar, com transplante fecal, tanto a obesidade quanto outras alterações que determinam a síndrome metabólica, como hipertensão arterial, resistência à insulina, glicemia aumentada, colesterol e triglicerídios elevados, entretanto, ainda são necessários mais estudos para comprovar como deve ser este tratamento e para quem está indicado.

Além disso, deve-se lembrar que uma dieta rica em açúcar e gordura, e pobre em fibras, é uma das principais causas de desregulação da flora intestinal e a sobrevivência de bactérias maléficas, e, por isso, não adianta fazer um transplante fecal se não há uma dieta que favoreça a sobrevivência das bactérias boas.

5. Autismo

Observou-se, em um estudo científico, que pacientes com autismo que receberam o transplante fecal tiveram uma melhora dos sintomas, entretanto, ainda são necessários mais estudos para concluir que realmente existe uma ligação e uma influência deste procedimento para o tratamento do autismo.

6. Doenças neurológicas

Outra função promissora do transplante fecal é a possibilidade de tratar e reduzir os sintomas de doenças neurológicas como esclerose múltipla, distonia mioclônica e doença de Parkinson, pois tem se observado uma importante ligação entre a flora intestinal com as funções imune e cerebral.

Outras utilidades possíveis

Além das doenças citadas, o transplante fecal tem sido estudado no tratamento e controle de outras doenças, como hepatite crônica, encefalopatia hepática, doenças hematológicas imunes, como púrpura trombocitopênica, e no tratamento de infecções generalizadas causadas por bactérias resistentes.

Assim, apesar de a terapia fecal já ser realizada há muitos anos na medicina, as descobertas do seu real potencial para a saúde são ainda recentes, sendo necessário que estudos médicos ainda comprovem todas essas promessas.

Como é feito o transplante

O transplante fecal é feito introduzindo-se as fezes saudáveis do doador no paciente. Para isso, é necessário coletar cerca de 50 g de fezes do doador, que deve ser analisada para se certificar que não têm a bactéria Clostridium difficile ou outros parasitas.

Em seguida, as fezes são diluídas em soro fisiológico e colocadas no intestino do paciente, através de sonda nasogástrica, clister retal, endoscopia ou colonoscopia, podendo ser necessária uma ou mais doses, a depender da doença tratada e da gravidade da inflamação intestinal.

Geralmente, o procedimento é rápido e não se sente qualquer tipo de dor ou incômodo.

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Atualizado por Flávia Costa - Farmacêutica, em janeiro de 2023. Revisão clínica por Dr. Antonio Carlos Moraes - Gastroenterologista, em janeiro de 2023.
Revisão clínica:
Dr. Antonio Carlos Moraes
Gastroenterologista
Mestre em Gastroenterologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e CRM-RJ 436069. Membro titular da Federação Brasileira de Gastroenterologia.

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