A melatonina virou presença comum na mesa de cabeceira de quem sofre com insônia. O corpo produz esse hormônio na glândula pineal quando escurece, e ele avisa ao organismo que chegou a hora de dormir. O problema é o uso diário sem orientação médica. Ele pode trazer efeitos colaterais que pouca gente liga ao suplemento.
Por que o hormônio do sono não é tão inofensivo quanto parece?
A fama de produto natural leva muita gente a tomar a cápsula toda noite sem pensar duas vezes. Só que a substância vendida em comprimido ou gota age como um hormônio de verdade. Ela mexe na temperatura corporal, na pressão arterial e na liberação de outros hormônios, como o cortisol.
A dose também costuma passar despercebida. Muitos produtos importados trazem de 3 a 10 mg por unidade. Os estudos de fisiologia mostram que 0,1 a 0,5 mg já bastam para reproduzir no sangue os níveis noturnos naturais. Quem toma 5 mg todos os dias recebe, portanto, uma carga várias vezes maior do que o próprio cérebro fabricaria.
O que a ciência diz sobre tomar melatonina por meses seguidos?
Uma revisão publicada em 2022 reuniu estudos prospectivos que acompanharam por pelo menos seis meses pessoas em uso contínuo do suplemento. Os autores apontaram uma baixa frequência de eventos adversos no uso prolongado. Para quem já toma o produto há algum tempo, o resultado soa como boa notícia.
Os mesmos pesquisadores, porém, pediram cautela. Foram encontrados poucos ensaios duplo-cegos controlados por placebo, o tipo de estudo mais confiável para separar o efeito real da coincidência. Em outras palavras, ainda faltam provas sólidas de que décadas de uso diário são seguras, principalmente com doses altas.

Sonolência diurna e dor de cabeça são sinais de exagero?
As reações indesejadas aparecem com mais frequência quando a dose é alta ou quando o comprimido é tomado muito tarde. As queixas mais relatadas nos consultórios são estas:
- Sonolência diurna, com sensação de ressaca ao acordar e dificuldade de concentração pela manhã;
- Dor de cabeça, que pode surgir já nos primeiros dias de uso;
- Tontura, náusea e desconforto abdominal;
- Sonhos muito vívidos ou pesadelos frequentes;
- Irritabilidade e leve queda do humor.
A sonolência diurna é perigosa para quem dirige ou opera máquinas logo cedo, porque deixa os reflexos mais lentos. Antes de culpar o estresse ou a noite mal dormida, vale rever a quantidade ingerida e conhecer a forma correta de tomar melatonina, além das contraindicações do produto.
O horário errado pode desregular o ritmo circadiano?
O ritmo circadiano é o ciclo de cerca de 24 horas que organiza o sono, a fome, a temperatura e a produção de hormônios. A luz da manhã e a escuridão da noite são os principais ajustadores desse relógio interno. Quando o suplemento entra em horários variados, o cérebro recebe sinais contraditórios sobre quando a noite começa.
Na prática, quem toma a cápsula de madrugada, depois de despertar, tende a empurrar o efeito sedativo para a manhã seguinte. Já a ingestão em horários aleatórios pode atrasar ou adiantar o ritmo circadiano, o oposto do que busca quem tem insônia. Reduzir telas e luz forte uma hora antes de deitar ajuda o hormônio natural a fazer seu papel.
Quais regras a Anvisa definiu para o suplemento no Brasil?
A Anvisa liberou a venda de melatonina como suplemento alimentar em 2021, com limite de 0,21 mg por dia para adultos a partir de 19 anos. Além de fixar a dose, a agência restringe o público e cobra advertências no rótulo. Entre os cuidados indicados estão:
- Não usar durante a gestação e a amamentação;
- Não oferecer a crianças e adolescentes;
- Evitar a combinação com bebidas alcoólicas e calmantes;
- Ter atenção redobrada ao dirigir após o consumo.
Doses maiores, comuns em produtos importados e manipulados, ficam fora da regra dos suplementos e dependem de prescrição. Por isso, muita gente consome todas as noites mais de dez vezes o limite nacional sem saber.
Quando o uso contínuo pede avaliação médica?
Insônia que dura mais de três meses, ronco alto, sonolência diurna persistente ou dor de cabeça ao acordar merecem investigação, porque podem indicar apneia do sono, ansiedade ou depressão. Quem usa anticoagulantes, antidepressivos, anti-hipertensivos ou remédios para epilepsia precisa de orientação antes de começar o suplemento, pelo risco de interação. O teto definido pela Anvisa serve de referência, mas a dose e o tempo de tratamento devem ser ajustados pelo médico, de acordo com o diagnóstico e com o padrão de sono de cada paciente.
Este material tem caráter informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o acompanhamento de um profissional de saúde. Se você usa melatonina com frequência e percebe sintomas novos, procure orientação médica.









