Muita gente trata o ronco como algo engraçado ou simplesmente irritante para quem dorme ao lado. O que poucos sabem é que ele pode ser um sinal clínico importante, com três níveis distintos de gravidade, do ronco primário, sem risco significativo, até a apneia obstrutiva do sono grave, uma condição que interrompe a respiração repetidamente durante a noite e eleva consideravelmente o risco de problemas cardiovasculares. Saber em qual nível você se encontra pode mudar o rumo da sua saúde.
Nível 1: o ronco primário e quando ele não representa perigo
O ronco primário ocorre quando há vibração dos tecidos moles da garganta durante o sono, sem que isso cause pausas na respiração ou quedas nos níveis de oxigênio no sangue. Nesse estágio, o ronco é intermitente, geralmente mais intenso após consumo de álcool, em posição de barriga para cima ou em episódios de gripe e alergia. Isoladamente, não representa risco direto à saúde, mas pode ser um sinal de alerta para estágios mais graves.
Fatores como excesso de peso, obstrução nasal crônica, amígdalas aumentadas e uso de sedativos facilitam a vibração das vias aéreas e contribuem para o ronco frequente. A simples mudança de posição ao dormir ou o controle do peso já pode reduzir esses episódios de forma significativa.
Nível 2: a síndrome da resistência das vias aéreas superiores
No segundo nível, as vias aéreas não chegam a fechar completamente, mas ficam tão estreitadas que o esforço para respirar aumenta muito. O cérebro detecta esse esforço e promove microdespertares ao longo da noite para restabelecer a respiração, tão breves que a pessoa nem percebe, mas suficientes para fragmentar o sono profundo. O resultado é uma sonolência excessiva durante o dia, dificuldade de concentração e irritabilidade, mesmo depois de dormir horas suficientes.

O que a revisão científica publicada no PubMed confirma sobre apneia e coração
A relação entre os estágios mais graves do ronco e o sistema cardiovascular foi documentada com solidez pela literatura científica. Segundo a revisão sistemática Associação e fatores de risco para apneia obstrutiva do sono e doenças cardiovasculares: uma revisão sistemática, , a apneia obstrutiva do sono está diretamente associada a fatores de risco cardiovascular como hipertensão arterial, obesidade e diabetes. A revisão sistematizou estudos conduzidos entre 2018 e 2021 e concluiu que a apneia do sono aumenta significativamente o risco de doenças cardíacas, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca, condições que, em muitos casos, poderiam ser prevenidas com o diagnóstico e tratamento precoce do distúrbio do sono.
Nível 3: a apneia obstrutiva do sono e os riscos para o coração
No terceiro e mais grave nível, as vias aéreas fecham completamente durante o sono por segundos ou até minutos, repetidas vezes por noite. Cada episódio de pausa respiratória força o organismo a liberar hormônios de estresse, eleva a pressão arterial e sobrecarrega o coração. Segundo a Academia Americana de Medicina do Sono (AASM), a gravidade da apneia é classificada pelo índice de apneia-hipopneia (IAH): leve (5 a 14 eventos por hora), moderada (15 a 29 eventos por hora) e grave (30 ou mais eventos por hora).
A apneia grave, quando não tratada, está associada ao desenvolvimento de hipertensão resistente, arritmias cardíacas, infarto do miocárdio e AVC. O tratamento com CPAP, aparelho que mantém as vias aéreas abertas durante o sono é o mais eficaz para reduzir esses riscos e restaurar a qualidade do sono.
Sinais que indicam que o ronco merece avaliação médica urgente
Nem todo ronco exige investigação imediata, mas alguns sinais combinados indicam a necessidade de avaliação especializada com urgência. Os principais alertas são:
O diagnóstico da apneia do sono é feito por um exame chamado polissonografia, considerado o padrão-ouro para avaliar o sono e classificar a gravidade do distúrbio. Qualquer pessoa que apresente dois ou mais dos sinais listados acima deve buscar avaliação com um médico especialista em medicina do sono para investigação adequada e, se necessário, iniciar o tratamento antes que as consequências cardiovasculares se instalem.









