O neurocientista John Cryan, da University College Cork, na Irlanda, ajudou a mostrar que o café age muito além do estômago. A bebida tem polifenóis e fibras solúveis que alimentam bactérias da microbiota intestinal, e esse processo parece influenciar o humor. O efeito apareceu inclusive na versão sem cafeína, o que muda a forma de enxergar a xícara do dia a dia.
Por que o café interessa tanto às bactérias do intestino?
Um grão torrado carrega centenas de compostos bioativos. Entre eles estão os ácidos clorogênicos, um tipo de polifenol que o intestino delgado absorve só em parte. A maior porção chega ao cólon, onde as bactérias fermentam essas moléculas e produzem metabólitos que caem na circulação sanguínea.
Uma análise complementar, publicada em dezembro de 2024, cruzou dados de dieta e microbioma de mais de 22 mil pessoas com informações de 211 coortes. O café foi o item do cardápio mais ligado à composição bacteriana, com destaque para a abundância maior de Lawsonibacter asaccharolyticus em quem bebe café. Por ser observacional, esse trabalho mostra associação, e não prova de causa.
O que a equipe de John Cryan encontrou em quem toma café?
O grupo de John Cryan, ligado ao centro APC Microbiome Ireland, divulgou em 2026 os resultados de um ensaio com 62 adultos. Metade tinha o hábito de tomar café e a outra metade não consumia a bebida. Os pesquisadores avaliaram humor, impulsividade, funções cognitivas e a composição das bactérias intestinais dos participantes.

As duas versões da bebida, com e sem cafeína, se associaram à redução do estresse percebido e do humor depressivo, além de menor impulsividade. Essas melhoras vieram junto com mudanças na microbiota intestinal. O dado sugere que parte do benefício passa pelas bactérias do intestino, e não apenas pela ação da cafeína sobre os neurônios.
Café descafeinado também mexe com humor e memória?
A parte mais curiosa do estudo irlandês foi a divisão de efeitos entre as duas versões. Cada uma pareceu favorecer funções diferentes do cérebro:
- Café com cafeína: menos ansiedade e mais atenção.
- Café descafeinado: melhor desempenho em aprendizado e memória.
- As duas versões: queda no estresse percebido, no humor depressivo e na impulsividade.
Esse padrão indica que os polifenóis, presentes nos dois tipos de grão, têm papel próprio na resposta do organismo. Para quem sente taquicardia, tremor ou insônia com cafeína, o café descafeinado preserva boa parte desses compostos e mantém o contato das bactérias com o que vem da xícara.
Quanto café cabe numa alimentação equilibrada?
A cafeína tem um teto seguro. Para adultos saudáveis, a referência mais usada é de até 400 mg por dia, perto de quatro xícaras de café coado. Gestantes devem ficar abaixo de 200 mg. Como chá-mate, chá-preto, chocolate amargo e refrigerantes de cola também entram nessa conta, ajuda conhecer as fontes alimentares de cafeína antes de somar o total do dia.

Alguns hábitos ajudam a aproveitar melhor os compostos do grão para o intestino:
- Reduzir o açúcar adicionado, que favorece bactérias menos desejáveis.
- Trocar bebidas prontas com xarope e creme pelo café coado ou expresso.
- Tomar a última dose com cafeína até o início da tarde, para proteger o sono.
- Combinar a bebida com fibras, frutas, leguminosas e alimentos fermentados.
Como o eixo intestino-cérebro transforma comida em emoção?
O eixo intestino-cérebro é a rede de comunicação entre o trato digestivo e o sistema nervoso central. Ele usa o nervo vago, hormônios, células de defesa e substâncias fabricadas pelas bactérias, como os ácidos graxos de cadeia curta. Grande parte da serotonina do corpo é produzida no intestino, e por isso a fermentação dos polifenóis do café pode refletir no humor e na resposta ao estresse.
O que essa descoberta muda na hora de escolher a xícara?
Os achados de John Cryan colocam o café ao lado de iogurte natural, kefir, feijão e verduras na lista de alimentos que nutrem a microbiota intestinal. Uma xícara sem açúcar, dentro do limite diário de cafeína e acompanhada de um prato rico em fibras, entrega polifenóis às bactérias que alimentam o eixo intestino-cérebro. Quem prefere a versão descafeinada mantém boa parte desse aporte.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui a avaliação de um médico ou nutricionista. Se você tem gastrite, refluxo, arritmia, ansiedade intensa ou está grávida, procure orientação profissional antes de mudar seu consumo de café.









