A melatonina é mais conhecida por participar da regulação do sono e do relógio biológico, mas sua atuação no organismo não se limita ao momento de dormir. Pesquisas têm investigado possíveis relações com metabolismo, pressão arterial, inflamação e estresse oxidativo. Isso não significa, porém, que tomar melatonina trate essas condições: muitos resultados ainda são preliminares, variam conforme a população estudada e não justificam o uso do suplemento para prevenir ou tratar doenças por conta própria.
O que a melatonina faz além de ajudar a regular o sono?
A melatonina é um hormônio produzido principalmente pela glândula pineal durante a noite. Sua função mais bem estabelecida é sinalizar ao organismo a chegada do período noturno e participar da organização do ritmo circadiano, que influencia não apenas o sono, mas também processos fisiológicos que variam ao longo das 24 horas.
Além dessa função, pesquisadores estudam a participação da melatonina em mecanismos relacionados à atividade antioxidante, resposta inflamatória, metabolismo da glicose e funcionamento cardiovascular. Por isso, a melatonina e suas funções no organismo vêm recebendo atenção além do campo dos distúrbios do sono.
O que os estudos encontraram sobre metabolismo e coração?
Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025, que reuniu 63 ensaios clínicos randomizados, investigou a suplementação de melatonina em diferentes marcadores cardiometabólicos. Os pesquisadores observaram alterações favoráveis em alguns parâmetros, incluindo pressão arterial sistólica, glicemia de jejum, colesterol e certos marcadores inflamatórios e de estresse oxidativo.
Entretanto, os resultados não foram positivos para todos os indicadores. Não foram identificadas mudanças significativas em medidas como peso corporal, índice de massa corporal, hemoglobina glicada, triglicerídeos e pressão diastólica. Os próprios autores destacam que ainda não existe consenso definitivo sobre os efeitos cardiometabólicos da melatonina.

Isso significa que a melatonina pode ser usada para prevenir doenças?
Não. Encontrar mudanças em determinados exames durante estudos clínicos é diferente de demonstrar que um suplemento previne diabetes, infarto ou outras doenças. Além disso, os trabalhos utilizam doses, períodos de tratamento e grupos de participantes diferentes, o que dificulta aplicar os resultados para toda a população.
Pesquisas cardiovasculares ilustram essa diferença. Uma metanálise de ensaios clínicos publicada em 2026 encontrou melhora em alguns parâmetros da função cardíaca em contextos específicos, especialmente em pacientes submetidos à cirurgia de revascularização. Outros desfechos, porém, como níveis de troponina e tamanho do infarto, apresentaram resultados inconsistentes. Portanto, esses achados não estabelecem a melatonina como tratamento cardiovascular.
Por que é preciso cuidado antes de tomar melatonina?
O fato de a melatonina ser produzida naturalmente pelo organismo não significa que seu uso em suplemento seja adequado para qualquer pessoa. Pode ocorrer sonolência durante o dia, dor de cabeça, tontura, náusea e outros efeitos colaterais da melatonina, além da possibilidade de interação com medicamentos.
No Brasil, a Anvisa autoriza melatonina como suplemento alimentar para adultos a partir de 19 anos, com limite máximo diário de 0,21 mg nessa categoria. A Agência também determina advertências para gestantes, lactantes, crianças e pessoas que realizam atividades que exigem atenção constante, além de recomendar avaliação médica para quem possui doenças ou utiliza medicamentos.

O que essas pesquisas mudam na prática?
Os estudos ajudam a entender melhor que a melatonina participa de uma rede de processos fisiológicos mais ampla do que apenas o sono. No entanto, investigar uma possível ação biológica não é o mesmo que comprovar benefício clínico suficiente para recomendar suplementação.
Por isso, a melatonina não deve ser usada por conta própria com a intenção de controlar glicose, colesterol, pressão, inflamação ou prevenir doenças cardiovasculares. Se houver interesse em utilizar o suplemento, especialmente na presença de doenças crônicas ou uso contínuo de medicamentos, a decisão deve ser discutida com médico ou outro profissional de saúde habilitado.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação médica individualizada.








