Sentir queimação, formigamento ou choques nos pés costuma ser o primeiro sinal de alerta em quem convive com diabetes, mas é a perda de sensibilidade que representa o estágio mais preocupante. Quando os nervos deixam de transmitir dor, calor e pressão, pequenos cortes e ferimentos passam despercebidos e podem evoluir para úlceras graves. Entender essa progressão silenciosa da neuropatia diabética ajuda a preservar os pés e evitar complicações que, em muitos casos, poderiam ser prevenidas com cuidados diários simples.
Por que a glicose elevada danifica os nervos dos pés?
Níveis altos de açúcar no sangue mantidos por meses ou anos comprometem os pequenos vasos que nutrem os nervos periféricos. Sem irrigação adequada, essas fibras nervosas se degeneram, especialmente nos pés, que são os pontos mais distantes do coração.
Esse dano é a base da neuropatia diabética, condição que atinge cerca de metade das pessoas com diabetes ao longo da vida. Quanto mais tempo a glicose fica descontrolada, maior é a perda progressiva da sensibilidade tátil, térmica e dolorosa.
Como a queimação evolui para a perda de sensibilidade?
A neuropatia diabética costuma seguir um padrão previsível, começando com sintomas irritativos e evoluindo para a insensibilidade. Reconhecer essa progressão ajuda a identificar em qual estágio o problema se encontra. As fases mais frequentes são:
- Formigamento leve, geralmente nos dedos dos pés, no início do dano nervoso
- Queimação ou ardência, especialmente à noite, indicando irritação das fibras nervosas
- Choques e agulhadas, com sensações desagradáveis mesmo em repouso
- Dor persistente, que pode interferir no sono e nas atividades diárias
- Redução da sensibilidade, com dificuldade de perceber calor, frio ou toque
- Perda total da proteção, quando cortes e machucados não são notados
É justamente nesta última fase que o risco de pé diabético aumenta, já que feridas simples podem infeccionar e evoluir para úlceras profundas antes que a pessoa perceba.

Por que a insensibilidade é mais perigosa que a dor?
A dor tem função protetora, avisando o cérebro sobre lesões e obrigando a pessoa a agir. Quando essa comunicação se perde, um prego no chão, uma bolha causada pelo sapato ou uma queimadura por água quente podem passar despercebidos por horas ou dias.
Nesse cenário, o ferimento evolui em silêncio até se tornar uma úlcera profunda, muitas vezes já infectada. A associação entre má circulação e imunidade prejudicada dificulta a cicatrização e aumenta o risco de amputação, uma das principais complicações da diabetes quando não há acompanhamento adequado.
O que diz o estudo brasileiro sobre perda de sensibilidade nos pés?
A ciência confirma que a insensibilidade plantar é um marcador precoce e relevante da neuropatia diabética. Segundo o estudo Avaliação da perda da sensibilidade protetora plantar como diagnóstico precoce da neuropatia diabética, publicado no Brazilian Journal of Development, 53,3% dos pacientes com diabetes tipo 2 avaliados em ambulatório apresentavam perda da sensibilidade protetora dos pés, condição associada a rachaduras, fissuras e maior risco de úlceras.
Os autores destacam que identificar essa alteração de forma precoce, com testes simples como o monofilamento, permite iniciar cuidados preventivos antes que surjam lesões graves. A recomendação é reforçada pela Sociedade Brasileira de Diabetes, que orienta a avaliação anual dos pés em toda pessoa diabética.

Quais cuidados diários com os pés protegem quem tem diabetes?
Pequenos hábitos incorporados à rotina reduzem drasticamente o risco de complicações. A American Diabetes Association e a Sociedade Brasileira de Diabetes recomendam os seguintes cuidados:
- Inspecionar os pés todos os dias, incluindo entre os dedos e nas solas, com auxílio de espelho se necessário
- Lavar com água morna e sabonete neutro, secando bem entre os dedos
- Hidratar a pele diariamente, evitando aplicar creme entre os dedos
- Cortar as unhas em linha reta e não remover cutículas em casa
- Usar sapatos fechados, macios e confortáveis, evitando andar descalço
- Trocar meias todos os dias e preferir modelos sem costuras
- Verificar a temperatura da água antes do banho para evitar queimaduras
- Buscar avaliação imediata em caso de qualquer ferida, calo ou alteração de cor
Além dessas medidas, controlar a glicemia com acompanhamento médico regular é essencial para retardar a evolução da neuropatia. Ao notar qualquer alteração nos pés, procurar orientação de endocrinologista, cirurgião vascular ou enfermeiro treinado pode fazer diferença no desfecho, especialmente quando existem feridas em diabéticos que demoram a cicatrizar.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um profissional de saúde qualificado. Em caso de sintomas persistentes, procure orientação médica.









