A tirzepatida, molécula dupla originalmente desenvolvida para o controle do peso e da glicose, vem se destacando como uma nova alternativa farmacológica para adultos com apneia obstrutiva do sono moderada a grave associada à obesidade. Estudos recentes mostram que o medicamento reduz as pausas respiratórias noturnas, melhora a oxigenação e diminui a pressão arterial, abrindo caminho para um tratamento que atua sobre causa e consequência do distúrbio.
O que é a apneia obstrutiva do sono?
A apneia obstrutiva do sono é um distúrbio em que os músculos da parte posterior da garganta relaxam durante a noite e bloqueiam a passagem de ar, provocando pausas respiratórias que podem se repetir mais de cinco vezes por hora. O quadro costuma causar ronco intenso, sono fragmentado e sonolência diurna excessiva.
Estima-se que a condição atinja cerca de um bilhão de pessoas no mundo, e o excesso de peso é o principal fator de risco modificável. Cerca de 70% dos pacientes diagnosticados convivem também com obesidade, segundo a American Diabetes Association.
Como a tirzepatida age no organismo?
A tirzepatida é um agonista duplo dos receptores GLP-1 e GIP, administrado por via subcutânea uma vez por semana. Foi inicialmente aprovada para o tratamento da diabetes tipo 2 e do controle crônico de peso, atuando na regulação do apetite, da glicemia e do metabolismo energético.
Na apneia do sono, o efeito terapêutico está diretamente ligado à perda de peso, já que a redução do tecido acumulado na região cervical alivia a obstrução das vias aéreas. Em pacientes sem obesidade, o medicamento não oferece benefício comprovado para o distúrbio respiratório.

Quais benefícios o tratamento oferece?
Os ensaios clínicos de fase 3 demonstraram que a tirzepatida vai além da redução de peso e atua sobre marcadores cardiometabólicos importantes para quem convive com a apneia. Entre os principais resultados observados em 52 semanas de tratamento estão:

Quando combinada ao uso do aparelho CPAP, a tirzepatida potencializa a oxigenação noturna e o controle pressórico em comparação ao uso isolado do dispositivo.
Como um estudo do NEJM confirma a eficácia?
A evidência mais robusta sobre o tema veio de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido em duas etapas com 469 adultos com apneia obstrutiva moderada a grave e obesidade. Segundo o estudo Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity publicado no The New England Journal of Medicine, o grupo tratado com tirzepatida apresentou redução média de até 29,3 eventos respiratórios por hora, contra 5,5 no grupo placebo.
Com base nesses resultados, em dezembro de 2024 a Food and Drug Administration (FDA) aprovou oficialmente o uso da tirzepatida para apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade, como complemento à dieta hipocalórica e à prática regular de atividade física.
Quais são os cuidados e efeitos adversos?
O perfil de segurança da tirzepatida é considerado favorável, com a maioria dos efeitos colaterais limitados a sintomas digestivos leves e autolimitados. Casos graves, como pancreatite, são raros e isolados nos relatos científicos disponíveis até o momento.
Ainda assim, alguns pontos merecem atenção antes do início do tratamento da apneia do sono com o medicamento:
- Náuseas, vômitos, diarreia ou constipação nas primeiras semanas de uso
- Necessidade de ajuste gradual da dose para reduzir desconfortos
- Contraindicação em casos de histórico pessoal ou familiar de câncer medular de tireoide
- Monitoramento da glicemia em pacientes que utilizam outros antidiabéticos
- Custo elevado, que ainda representa uma limitação importante de acesso
O acompanhamento médico é indispensável para avaliar a indicação correta, ajustar a dosagem e monitorar a resposta ao tratamento ao longo do tempo.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a prescrição de um médico ou profissional de saúde qualificado. Procure orientação médica antes de iniciar qualquer tratamento.









