Uma estratégia desenvolvida por pesquisadores brasileiros em colaboração com uma equipe italiana conseguiu tratar artérias coronárias pequenas e muito calcificadas sem deixar um stent metálico dentro do vaso. O método combina ondas de pressão acústica, que fraturam o cálcio endurecido na parede da artéria, com um balão revestido por medicamento. Os primeiros resultados envolveram apenas 50 pacientes e ainda estão em processo de revisão científica, por isso a técnica não pode ser considerada uma substituta estabelecida para o stent.
Como as ondas sonoras conseguem abrir uma artéria calcificada?
A primeira etapa é chamada de litotripsia intravascular. Um pequeno balão com emissores de energia é levado por um cateter até o ponto estreitado da artéria. Ali, são produzidas ondas de pressão acústica que atravessam os tecidos e provocam pequenas fraturas no cálcio que torna a parede do vaso rígida. O princípio físico é semelhante ao usado para fragmentar cálculos renais.
Isso não significa que o cálcio seja retirado da artéria. As fraturas tornam a região menos rígida e permitem que o vaso seja dilatado com maior facilidade. A litotripsia intravascular já é estudada para lesões coronárias calcificadas, e um ensaio clínico publicado no JACC: Cardiovascular Interventions mostrou que a técnica pode melhorar o preparo de lesões severamente calcificadas antes da implantação de stents.
Se não há stent, o que mantém o vaso aberto?
Depois de modificar o cálcio, os pesquisadores utilizam um balão farmacológico. Ele é inflado no local tratado e libera um medicamento na parede da artéria para diminuir a proliferação de tecido durante a cicatrização, um processo que poderia favorecer um novo estreitamento. Em seguida, o balão é retirado.
A diferença para a angioplastia com stent é que nenhuma estrutura metálica permanece no vaso. No tratamento convencional, o stent funciona como uma pequena malha que fica permanentemente na artéria para sustentá-la aberta. Na estratégia estudada, a proposta é conseguir um resultado adequado apenas com o preparo da placa e a aplicação do medicamento.

O que aconteceu com os 50 pacientes do estudo?
O estudo piloto avaliou 50 pessoas tratadas no Brasil e na Itália que apresentavam coronárias de pequeno calibre e calcificação severa. Segundo os resultados apresentados em maio de 2026 no congresso EuroPCR, em Paris, foi possível concluir o tratamento sem stent em 88% dos participantes selecionados para a estratégia.
De acordo com o relato dos resultados preliminares do estudo, não foram registradas complicações relacionadas ao procedimento nessa amostra e, após seis meses, exames mostraram manutenção do calibre das artérias tratadas. O manuscrito completo, porém, ainda está em revisão por pares.
Por que evitar um stent pode ser interessante em alguns casos?
Artérias pequenas e muito calcificadas representam um desafio porque a rigidez causada pelo cálcio pode dificultar a expansão adequada do stent. Uma estrutura que não se abre completamente pode aumentar o risco de problemas posteriores. Evitar um implante permanente também pode ser interessante em situações específicas, desde que seja possível obter uma abertura adequada da artéria de outra maneira.
Isso não significa que o stent tenha deixado de ser importante. Ele continua sendo amplamente utilizado no tratamento de obstruções coronárias e pode ser necessário inclusive quando uma estratégia inicialmente planejada sem stent não produz um resultado satisfatório.

A nova técnica já pode substituir o stent?
Ainda não. O trabalho apresentado é um estudo inicial, com somente 50 participantes e acompanhamento de seis meses. Esses resultados servem principalmente para mostrar que a combinação parece viável e merece ser investigada em grupos maiores, mas não permitem afirmar que ela tenha a mesma segurança e eficácia do stent em longo prazo.
Serão necessários estudos maiores, comparativos e com vários anos de acompanhamento para definir quais pacientes realmente podem se beneficiar da estratégia e qual é seu risco de nova obstrução, infarto ou necessidade de outro procedimento. Até lá, a escolha entre litotripsia, balão farmacológico, stent ou outras técnicas depende das características da artéria e da avaliação da equipe de cardiologia intervencionista.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui a avaliação de um médico. O tratamento de obstruções das artérias coronárias deve ser definido individualmente por um cardiologista, de acordo com o quadro clínico e as características da lesão.








