A polilaminina, substância experimental estudada para lesões traumáticas da medula espinhal, vai entrar em uma nova fase de testes em humanos no Brasil. A etapa representa um avanço importante na pesquisa, mas ainda não serve para demonstrar que a substância recupera movimentos ou funciona para todos os tipos de lesão medular. Nesta fase, a principal pergunta é mais básica e indispensável antes de estudos maiores: a aplicação pode ser realizada com segurança?
O que será avaliado nesta nova fase?
O estudo de fase 1 autorizado pela Anvisa deve começar em 24 de setembro de 2026, inicialmente com cinco voluntários entre 18 e 72 anos. Eles deverão apresentar lesão medular traumática completa na região torácica, entre T2 e T10, ocorrida há menos de 72 horas, além de indicação de cirurgia.
A polilaminina será aplicada diretamente na região lesionada durante o procedimento cirúrgico, e os participantes serão acompanhados durante seis meses. O foco será observar tolerabilidade, possíveis reações adversas e outros riscos associados à aplicação, com avaliação de segurança acompanhada também por especialistas independentes.
O que uma fase 1 consegue responder?
Essa primeira etapa regulatória foi desenhada principalmente para responder questões de segurança, e não para confirmar recuperação motora.
- Segurança para identificar eventos adversos relacionados à substância e à forma de administração.
- Tolerabilidade para avaliar como o organismo reage à aplicação.
- Viabilidade do procedimento para verificar se a intervenção pode ser realizada conforme o protocolo proposto.
- Dados preliminares que podem ajudar a decidir se a pesquisa deve avançar para estudos maiores.
Mesmo que algum participante apresente recuperação durante o acompanhamento, isso isoladamente não comprova eficácia. Lesões medulares podem apresentar evoluções diferentes conforme localização, gravidade, tratamento cirúrgico, reabilitação e características individuais.

Por que os resultados anteriores chamaram atenção?
Antes da atual fase regulatória, pesquisadores acompanharam oito pessoas com lesão medular traumática completa que receberam polilaminina poucos dias após o trauma. O estudo piloto em humanos, publicado em 2026 na revista Spinal Cord, relatou melhora de pelo menos dois graus na escala neurológica AIS em seis participantes durante o acompanhamento.
O resultado é relevante para continuar investigando a técnica, mas o estudo era pequeno, não tinha grupo controle e não foi projetado para provar eficácia. Por isso, não é possível saber quanto da melhora ocorreu pela polilaminina, pela recuperação espontânea ou por outros componentes do cuidado. Estudos experimentais anteriores em animais também mostraram regeneração de fibras nervosas, mas resultados em modelos animais não podem ser transferidos automaticamente para pessoas.
O que ainda precisa ser descoberto antes do uso amplo?
A nova fase deve responder apenas parte das perguntas necessárias antes que a substância possa eventualmente se tornar um tratamento disponível.
- Se a aplicação é suficientemente segura em um protocolo clínico controlado.
- Se benefícios neurológicos aparecem com maior frequência do que ocorreriam sem a substância.
- Qual seria a magnitude e a duração de uma possível recuperação.
- Quais pacientes poderiam realmente se beneficiar do tratamento.
- Qual seria a janela adequada entre o trauma e a aplicação.
- Se os resultados permanecem em grupos maiores e comparados de forma controlada.
Também não é possível extrapolar a pesquisa atual para todas as pessoas com paraplegia ou tetraplegia. O protocolo desta fase seleciona um grupo bastante específico, com trauma recente, lesão completa e localização torácica.

A polilaminina já pode ser considerada um tratamento?
Ainda não. A polilaminina permanece experimental e não possui aprovação da Anvisa para comercialização ou utilização rotineira em pessoas com lesão medular. Se a fase 1 apresentar resultados de segurança aceitáveis, etapas posteriores poderão incluir grupos maiores e desenhos capazes de avaliar de forma mais confiável se existe benefício clínico e qual é sua extensão.
Por isso, o início dos novos testes representa avanço no desenvolvimento científico, mas não equivale à comprovação de uma cura ou de recuperação de movimentos. Pessoas com lesão medular e familiares interessados na pesquisa devem conversar com a equipe médica responsável pelo acompanhamento e pela reabilitação antes de considerar qualquer intervenção experimental.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação médica profissional.









