Uma alegação de que a ivermectina teria até 70% de eficácia contra a covid-19 voltou a circular nas redes sociais, mas esse percentual não é sustentado pelos principais ensaios clínicos realizados com o medicamento. O número aparece associado a um vídeo de uma audiência no Senado dos Estados Unidos, porém não corresponde a uma demonstração clínica de eficácia. Para saber se um tratamento funciona, é necessário avaliar os estudos adequados em conjunto, e não selecionar resultados isolados que parecem favoráveis.
De onde veio a alegação de 70% de eficácia?
O vídeo que voltou a circular mostra o senador norte-americano Ron Johnson questionando Anthony Fauci durante uma audiência realizada em julho de 2026. Na fala reproduzida, Johnson critica a condução da pandemia e menciona ivermectina e hidroxicloroquina, mas não apresenta um ensaio clínico mostrando 70% de eficácia da ivermectina. O percentual aparece no texto sobreposto ao vídeo compartilhado nas redes sociais.
A ivermectina é um antiparasitário usado contra doenças como estrongiloidíase, escabiose e pediculose. Um estudo de laboratório publicado no início da pandemia mostrou ação contra o SARS-CoV-2 em células cultivadas, mas um efeito observado em laboratório não demonstra automaticamente que o medicamento funciona em pessoas.
O que os ensaios clínicos encontraram?
Ensaios randomizados, nos quais participantes são distribuídos para receber o medicamento ou um comparador, oferecem evidências mais adequadas para investigar se a ivermectina realmente modifica a evolução da covid-19. Estudos maiores não confirmaram o benefício divulgado nas redes.
- o ensaio TOGETHER, publicado em 2022, avaliou 1.358 participantes nos grupos de ivermectina e placebo e não encontrou redução significativa de hospitalização ou observação prolongada no pronto atendimento;
- um ensaio randomizado com 476 adultos publicado no JAMA não encontrou redução significativa no tempo para desaparecimento dos sintomas;
- o estudo ACTIV-6 também não demonstrou melhora significativa no tempo de recuperação com ivermectina em pessoas com covid leve ou moderada;
- uma segunda análise do ACTIV-6 testou dose maior durante seis dias e novamente não mostrou melhora significativa na recuperação.
Resultados negativos em estudos diferentes são particularmente importantes porque testaram populações, doses e períodos de tratamento distintos.

Por que escolher apenas estudos favoráveis pode distorcer a resposta?
Durante a pandemia foram publicados muitos trabalhos sobre ivermectina, incluindo estudos pequenos e com desenhos bastante diferentes. Alguns relataram resultados positivos, enquanto outros não encontraram benefício. Somar apenas trabalhos favoráveis ou destacar um percentual sem considerar qualidade, tamanho da amostra e risco de viés pode produzir uma impressão enganosa sobre a eficácia.
Algumas análises iniciais também foram afetadas por estudos posteriormente questionados ou retirados. Por isso, revisões sistemáticas e diretrizes valorizam o conjunto das evidências, dando maior peso a ensaios randomizados bem conduzidos, em vez de simplesmente contar quantos trabalhos deram resultado positivo.
O que é preciso observar quando aparece um percentual de eficácia?
Antes de interpretar números divulgados sobre medicamentos, alguns pontos ajudam a saber o que realmente foi demonstrado:
- qual estudo originou o percentual e se ele pode ser localizado;
- se a pesquisa foi realizada em pessoas ou apenas em células ou animais;
- se houve grupo de comparação e distribuição aleatória dos participantes;
- qual resultado foi medido, como sintomas, internação ou morte;
- quantas pessoas participaram e qual foi a incerteza estatística;
- se estudos maiores e independentes chegaram a resultados semelhantes;
- se o número representa redução relativa ou absoluta do risco.
Um único percentual, portanto, não deve ser interpretado como prova de que um medicamento funciona.

A ivermectina deve ser usada para tratar covid?
A Organização Mundial da Saúde recomenda que a ivermectina não seja utilizada para tratar covid-19 fora de pesquisas clínicas. A ausência de benefício demonstrado nos principais ensaios também é diferente de dizer que o medicamento não tenha utilidade médica: ele continua tendo indicações estabelecidas contra determinadas infecções parasitárias.
Existem medicamentos usados no tratamento da covid-19 em situações específicas, e a escolha depende de fatores como idade, risco de complicações, gravidade e tempo desde o início dos sintomas. Pessoas com falta de ar, piora importante, febre persistente ou maior risco de doença grave devem procurar avaliação médica e não iniciar ivermectina ou outros medicamentos por conta própria.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por um profissional de saúde.








