Uma glicemia de jejum abaixo de 100 mg/dL é considerada normal, mas esse resultado não mostra sozinho como o organismo reage depois de receber uma grande quantidade de glicose. Algumas pessoas podem manter o açúcar normal em jejum e apresentar alterações quando são submetidas ao teste de tolerância à glicose. Por isso, a medida feita 1 hora após a ingestão de glicose ganhou espaço nas recomendações para identificar mais cedo pessoas com maior risco de diabetes.
Por que a glicemia de jejum pode deixar alterações passarem?
A glicemia de jejum mostra a concentração de açúcar no sangue depois de várias horas sem ingestão de calorias. É um exame simples e importante, mas representa apenas uma parte do metabolismo da glicose. Nas fases iniciais de uma alteração metabólica, o organismo ainda pode conseguir manter esse valor dentro da faixa normal.
O problema pode ficar mais evidente quando o corpo precisa lidar com uma carga de açúcar. A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2026 reconhece que os diferentes exames identificam grupos que não coincidem completamente e inclui a glicemia medida após 1 hora no teste oral de tolerância à glicose entre os critérios avaliados.
Como funciona a curva glicêmica de 1 hora?
O exame não corresponde a simplesmente medir a glicose uma hora depois do almoço ou do café da manhã. No teste padronizado, chamado teste oral de tolerância à glicose ou TTGO, a pessoa faz jejum, realiza uma coleta inicial e ingere uma solução contendo 75 gramas de glicose. Outra amostra é então coletada 1 hora depois.
A Sociedade Brasileira de Diabetes utiliza atualmente os seguintes pontos de corte para adultos não grávidos:
- abaixo de 155 mg/dL: faixa considerada normal no TTGO de 1 hora;
- de 155 a 208 mg/dL: faixa de pré-diabetes;
- 209 mg/dL ou mais: valor compatível com diabetes, que precisa ser confirmado quando não existem sinais inequívocos de hiperglicemia.
O Tua Saúde explica também como é feita a curva glicêmica e quais valores podem aparecer no exame.

Por que olhar a glicose depois de apenas 1 hora?
A proposta surgiu porque a elevação da glicose nesse momento pode revelar dificuldade para lidar com o açúcar antes que a glicemia de jejum esteja alterada. Um posicionamento da International Diabetes Federation publicado em 2024 concluiu que uma glicemia de 1 hora igual ou superior a 155 mg/dL identifica pessoas com maior risco de desenvolver diabetes tipo 2 e outras complicações metabólicas.
A entidade também propôs 209 mg/dL como ponto de corte para diabetes. As recomendações brasileiras incorporaram esses valores, destacando que o exame pode acrescentar informações principalmente quando existe pré-diabetes ou quando uma pessoa apresenta risco elevado apesar de resultados iniciais aparentemente normais.
Quem pode se beneficiar dessa investigação adicional?
Isso não significa que todas as pessoas devam solicitar uma curva glicêmica de 1 hora. A própria diretriz brasileira mantém glicemia de jejum e hemoglobina glicada como exames iniciais de rastreamento e reserva o TTGO para situações em que é necessário aprofundar a investigação.
Entre os contextos que podem levar o médico a considerar exames adicionais estão:
- pré-diabetes identificado em exames anteriores;
- sobrepeso ou obesidade associados a outros fatores de risco;
- histórico familiar de diabetes tipo 2;
- pressão alta ou alterações de colesterol e triglicerídeos;
- histórico de diabetes gestacional;
- síndrome dos ovários policísticos;
- vários fatores de risco mesmo com glicemia de jejum e hemoglobina glicada normais.

A curva de 1 hora substitui os exames tradicionais?
Não. Glicemia de jejum, hemoglobina glicada e TTGO avaliam aspectos diferentes do controle do açúcar no sangue e continuam tendo funções próprias. A novidade é que a medida de 1 hora passou a ser uma ferramenta adicional para detectar alterações que podem não aparecer no jejum e, em situações selecionadas, tornar a investigação mais sensível.
Por isso, uma glicemia de jejum normal não deve ser interpretada como garantia de que não exista nenhuma alteração, especialmente em pessoas com vários fatores de risco. Ao mesmo tempo, também não há indicação para realizar exames extras por conta própria: o médico pode decidir quais testes fazem sentido de acordo com idade, histórico, resultados anteriores e risco individual.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento médico.








