O tratamento da obesidade ganhou novas possibilidades com medicamentos como semaglutida e tirzepatida, que atuam em sinais biológicos ligados à fome e à saciedade. Esses remédios ajudam algumas pessoas a comer menos e alcançar uma perda de peso clinicamente relevante, mas não são soluções isoladas nem indicados para qualquer pessoa. O tratamento continua exigindo avaliação individual, acompanhamento profissional e mudanças de hábitos que ajudem a preservar os resultados e a saúde.
O que mudou no tratamento da obesidade?
Durante muito tempo, o tratamento foi associado principalmente à ideia de consumir menos calorias e aumentar a atividade física. Alimentação e exercício continuam fundamentais, mas hoje se reconhece com mais clareza que a obesidade é uma doença crônica influenciada também por fatores genéticos, hormonais, metabólicos e ambientais. O tratamento da obesidade pode combinar diferentes estratégias, incluindo acompanhamento nutricional, atividade física, apoio psicológico, medicamentos e, em situações específicas, cirurgia.
Essa mudança de perspectiva abriu espaço para medicamentos que atuam em mecanismos envolvidos no controle do peso. Uma diretriz clínica publicada pelo American College of Physicians em 2026 coloca semaglutida e tirzepatida entre as opções farmacológicas de primeira linha para determinados adultos com obesidade, sempre associadas a mudanças no estilo de vida.
Como semaglutida e tirzepatida diminuem a fome?
Os dois medicamentos fazem parte das chamadas terapias baseadas em incretinas, hormônios envolvidos no controle da glicose e da alimentação. Eles não pertencem exatamente à mesma classe: a semaglutida age como agonista do receptor de GLP-1, enquanto a tirzepatida atua nos receptores de GLP-1 e GIP.
Esses sinais chegam a regiões do cérebro que participam do controle da alimentação. Uma revisão sobre os mecanismos de GLP-1 e GIP descreve a atuação dessas vias na regulação da ingestão de alimentos e no aumento da sensação de saciedade. Na prática, algumas pessoas passam a sentir menos fome, ficam satisfeitas com porções menores e reduzem espontaneamente a ingestão de calorias.

Por que esses medicamentos não funcionam como um simples inibidor de apetite?
A ação é mais ampla do que apenas “tirar a fome”. Além dos sinais enviados ao cérebro, o GLP-1 participa do controle da liberação de insulina e glucagon e pode retardar o esvaziamento do estômago. A tirzepatida acrescenta a ação sobre o receptor de GIP, formando um mecanismo duplo.
Isso ajuda a explicar por que esses medicamentos têm efeitos metabólicos além da balança. Ao mesmo tempo, a resposta varia de pessoa para pessoa. O médico precisa considerar condições associadas, objetivos do tratamento, contraindicações, tolerabilidade e outros medicamentos em uso antes de definir se essa estratégia faz sentido.
Quais efeitos colaterais podem aparecer?
Os efeitos adversos mais frequentes são gastrointestinais e tendem a aparecer principalmente no início do tratamento ou durante o aumento gradual das doses. Entre eles estão:
- náusea;
- vômitos;
- diarreia;
- prisão de ventre;
- dor ou desconforto abdominal;
- sensação de estômago cheio.
Há também contraindicações, interações e eventos adversos menos comuns que precisam ser avaliados individualmente. No Brasil, a Anvisa determinou a retenção da receita para medicamentos agonistas de GLP-1, incluindo produtos com semaglutida e tirzepatida. Por isso, não devem ser usados por conta própria, emprestados de outra pessoa ou iniciados apenas com base em resultados vistos nas redes sociais.

É possível depender apenas do remédio para perder peso?
Não. Os medicamentos podem tornar o controle da fome e da ingestão mais viável para algumas pessoas, mas o tratamento também precisa cuidar da qualidade da alimentação, atividade física, sono, saúde emocional e doenças associadas. Esses hábitos ajudam não apenas no peso, mas na preservação da massa muscular e na melhora da saúde cardiovascular e metabólica.
A obesidade é uma condição crônica, e a estratégia pode precisar ser mantida ou ajustada ao longo do tempo. Interromper ou modificar sem orientação pode favorecer recuperação do peso em algumas pessoas. Por isso, a decisão sobre iniciar, continuar ou suspender semaglutida ou tirzepatida deve ser feita com acompanhamento médico, considerando benefícios e riscos de forma individual.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica. Medicamentos para obesidade devem ser usados somente com prescrição e acompanhamento profissional.









