A intensidade do exercício aeróbico pode influenciar respostas do organismo relacionadas ao intestino, segundo um pequeno ensaio clínico brasileiro com pessoas a partir dos 60 anos. Depois de 12 semanas, o grupo que realizou exercício de maior intensidade apresentou aumento maior da zonulina no sangue, um marcador estudado em pesquisas sobre a barreira intestinal. O resultado chama atenção, mas não prova que exercícios intensos tenham danificado ou deixado o intestino mais permeável.
O que mudou no grupo que treinou com maior intensidade?
O Effects of different intensities of aerobic exercise on intestinal permeability and inflammatory response in older adults, publicado na edição de setembro de 2026 da Experimental Gerontology, incluiu 29 adultos com 60 anos ou mais. Eles foram distribuídos aleatoriamente entre exercícios aeróbicos de alta ou baixa intensidade durante 12 semanas.
No grupo de alta intensidade, formado por 16 participantes, o aumento da zonulina sérica foi significativamente maior do que entre os 13 participantes que fizeram exercícios de baixa intensidade. A diferença entre as mudanças dos dois grupos foi de 21,98 ng/mL.
O aumento de zonulina significa que o exercício prejudicou o intestino?
Não é possível fazer essa interpretação. A zonulina participa da regulação das junções entre as células que revestem o intestino e costuma ser estudada como um possível indicador da permeabilidade intestinal. Porém, medir sua concentração no sangue não é o mesmo que demonstrar diretamente que a barreira intestinal ficou mais permeável ou sofreu lesão.
Além disso, há questionamentos científicos sobre a precisão e a especificidade de alguns testes comerciais de zonulina. Estudos metodológicos mostram que determinados ensaios podem detectar outras proteínas e apresentam concordância limitada com testes diretos de permeabilidade. Portanto, o resultado deve ser entendido como alteração de um marcador relacionado à barreira intestinal, e não como diagnóstico de “intestino permeável”.

O que mais o estudo encontrou?
Os pesquisadores também mediram diferentes substâncias relacionadas à inflamação para avaliar se a intensidade do exercício produzia respostas distintas. Os principais resultados foram:
- o aumento da zonulina foi maior depois do treinamento de alta intensidade;
- não houve diferença significativa entre os grupos nos marcadores inflamatórios e anti-inflamatórios após a correção para múltiplas comparações;
- o interferon gama apresentou redução proporcional maior no grupo de alta intensidade inicialmente;
- essa diferença, porém, deixou de ser estatisticamente significativa após a correção dos resultados;
- o estudo avaliou respostas biológicas, e não sintomas digestivos ou desenvolvimento de doenças intestinais.
Assim, os dados não mostram que uma intensidade tenha sido globalmente melhor ou pior para a saúde intestinal.
Por que exercícios intensos podem provocar respostas diferentes no intestino?
Durante exercícios mais exigentes, o organismo redistribui o fluxo sanguíneo para músculos, coração e pele, enquanto hormônios, temperatura corporal e metabolismo também se modificam. Dependendo da intensidade, duração, condicionamento e estado de hidratação, essas adaptações podem influenciar temporariamente o trato gastrointestinal.
Isso não anula os muitos benefícios da atividade física. Exercícios regulares ajudam a preservar capacidade cardiovascular, músculos e autonomia, e pessoas mais velhas também se beneficiam de uma rotina que combine atividades aeróbicas, força e equilíbrio.
Para quem quer começar a movimentar o corpo com exercícios adaptáveis ao próprio nível, este treino do Tua Saúde mostra opções de pilates para iniciantes.
É preciso diminuir a intensidade do exercício depois dos 60?
O estudo não sustenta essa recomendação. A amostra foi pequena, com apenas 29 participantes, o acompanhamento durou 12 semanas e o principal resultado foi um marcador laboratorial cuja interpretação apresenta limitações. Também não foram demonstrados danos clínicos ao intestino causados pelo treino mais intenso.
- a intensidade adequada depende do condicionamento e do estado de saúde individual;
- pessoas sedentárias devem aumentar a carga de forma progressiva;
- doenças cardiovasculares, respiratórias ou limitações físicas podem exigir adaptações;
- hidratação e recuperação também são importantes durante exercícios mais exigentes;
- dor abdominal persistente, diarreia, sangramento ou outros sintomas digestivos não devem ser atribuídos automaticamente ao treino.
Os exercícios para idosos podem ser ajustados à capacidade de cada pessoa. Quem pretende iniciar treinos intensos após os 60 anos, especialmente diante de doenças crônicas ou sintomas durante o exercício, deve buscar orientação médica e de um profissional de educação física para definir uma progressão segura.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por um profissional de saúde.








