A chamada injeção semestral contra o HIV não é uma vacina. O lenacapavir é um medicamento antirretroviral de ação prolongada utilizado como profilaxia pré-exposição, a PrEP, para reduzir o risco de adquirir HIV antes de uma possível exposição. Sua aplicação a cada seis meses pode facilitar a prevenção para quem tem dificuldade com esquemas mais frequentes, mas não elimina a necessidade de testagem, acompanhamento de saúde e outras medidas de prevenção.
Como o lenacapavir previne o HIV?
O lenacapavir pertence à classe dos inibidores do capsídeo. Ele interfere em uma estrutura que protege o material genético do HIV e participa de diferentes etapas do ciclo do vírus. Na PrEP para HIV, o medicamento permanece no organismo por meses e dificulta que o vírus estabeleça uma infecção caso ocorra exposição.
Isso é diferente de uma vacina, que estimula o sistema imunológico a desenvolver uma resposta específica contra um agente infeccioso. O lenacapavir é um antirretroviral e sua proteção depende de manter o esquema de aplicações indicado enquanto houver necessidade de PrEP.
O que os estudos mostraram sobre a proteção?
Dois grandes ensaios clínicos de fase 3 avaliaram o medicamento em diferentes populações. Os resultados mostraram alta eficácia quando as aplicações foram realizadas no esquema previsto, mas não significam proteção absoluta em qualquer situação.
- no PURPOSE 1, realizado com adolescentes e mulheres jovens na África do Sul e em Uganda, nenhuma das 2.134 participantes que receberam lenacapavir adquiriu HIV durante a análise principal;
- no PURPOSE 2, realizado com homens cisgênero e pessoas de diferentes identidades de gênero, ocorreram 2 infecções entre 2.183 participantes que receberam lenacapavir;
- no PURPOSE 2, a incidência de HIV foi significativamente menor com lenacapavir do que com a PrEP oral diária utilizada como comparador;
- os estudos foram financiados pela Gilead Sciences, fabricante do medicamento;
- reações no local das aplicações estiveram entre os eventos adversos mais frequentes.
Esses estudos ajudaram a embasar recomendações internacionais. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde passou a recomendar o lenacapavir semestral como uma opção adicional de PrEP dentro da prevenção combinada do HIV.

Por que ainda é preciso fazer teste de HIV?
Antes de iniciar a PrEP com lenacapavir é necessário confirmar que a pessoa não tem HIV. A testagem também deve continuar durante o acompanhamento, inclusive antes das novas aplicações, porque o lenacapavir sozinho não constitui um esquema completo para tratar uma pessoa que já vive com o vírus.
Se uma infecção não for identificada e o medicamento continuar sendo usado isoladamente, o HIV pode desenvolver resistência ao lenacapavir. Por isso, sintomas compatíveis com uma infecção recente, exposições de maior risco e resultados de exames precisam ser avaliados antes da aplicação. O teste de HIV continua sendo parte essencial do acompanhamento.
O que o novo acordo muda para o Brasil?
O lenacapavir já recebeu autorização da Anvisa para PrEP no Brasil em adultos e adolescentes a partir de 12 anos e com pelo menos 35 kg. O acordo anunciado em setembro de 2026 entre a OPAS e a fabricante abriu uma nova possibilidade para que Brasil e outros 13 países da América Latina e do Caribe adquiram o medicamento por meio dos Fundos Rotatórios Regionais.
- o acordo facilita uma via de aquisição, mas não significa distribuição automática para a população;
- a implementação depende dos processos regulatórios, programáticos e de financiamento de cada país;
- aprovação pela Anvisa e incorporação ao SUS são etapas diferentes;
- a disponibilidade em um serviço de saúde pode ocorrer em momento diferente da aprovação regulatória;
- as opções de PrEP já disponíveis continuam sendo importantes enquanto novas estratégias são incorporadas.

O que a injeção semestral não substitui?
O lenacapavir protege especificamente contra o HIV e não previne sífilis, gonorreia, clamídia ou outras infecções sexualmente transmissíveis. Por isso, preservativos, testagem regular para ISTs, vacinação quando indicada e outras medidas continuam fazendo parte da prevenção combinada. Saiba também como prevenir a transmissão do HIV.
Quem deseja iniciar PrEP ou mudar o método de prevenção deve procurar um serviço de saúde ou infectologista para avaliar indicação, exames necessários, disponibilidade e o esquema mais adequado. Em caso de exposição recente ao HIV sem proteção adequada, também é importante buscar atendimento rapidamente para avaliar a necessidade de profilaxia pós-exposição.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por um profissional de saúde.








