Entre chás caseiros e receitas passadas por gerações, hortelã, boldo e espinheira-santa figuram como aliados clássicos contra o mal-estar após as refeições. Mas será que todas essas plantas realmente ajudam na digestão ou algumas permanecem apenas no campo da tradição popular? A ciência já investigou cada uma delas e os resultados mostram diferenças importantes entre o que funciona, o que tem efeito parcial e o que carece de comprovação robusta.
O que a hortelã faz pelo sistema digestivo?
A hortelã, especialmente a espécie Mentha piperita, é a planta com maior respaldo científico entre as três. Seu principal componente ativo, o mentol, tem ação antiespasmódica comprovada, relaxando a musculatura lisa do trato gastrointestinal e aliviando cólicas, gases e desconforto abdominal.
O óleo essencial de hortelã-pimenta em cápsulas com revestimento entérico é hoje uma das opções mais recomendadas para sintomas da síndrome do intestino irritável, com endosso de sociedades médicas de gastroenterologia em vários países.
O boldo realmente ajuda o fígado?
Popularmente associado à ressaca e à digestão pesada, o boldo apresenta dois cenários distintos. O boldo-do-chile (Peumus boldus) contém boldina, substância com ação colerética que estimula a produção de bile e pode auxiliar na digestão de gorduras, com estudos farmacológicos que sustentam esse mecanismo.
Já o boldo-brasileiro (Plectranthus barbatus), muito mais consumido no Brasil, tem evidências bem mais frágeis e o uso prolongado ou em doses elevadas é desaconselhado, principalmente para gestantes e pessoas com problemas hepáticos ou biliares.

Espinheira-santa tem eficácia comprovada contra gastrite?
A espinheira-santa (Maytenus ilicifolia) é considerada pela Anvisa uma planta medicinal com uso tradicional reconhecido para dispepsia, gastrite e úlceras leves. Estudos pré-clínicos mostram efeito protetor da mucosa gástrica e redução da secreção ácida, com resultados promissores em modelos experimentais.
Ainda assim, ensaios clínicos em humanos são limitados e não substituem o tratamento convencional em casos moderados ou graves, funcionando melhor como coadjuvante em quadros leves de má digestão.
Como um estudo científico avalia a hortelã-pimenta na digestão?
Para ilustrar o nível de evidência que separa uma planta bem estudada das demais, vale destacar uma metanálise recente sobre a hortelã-pimenta e distúrbios digestivos funcionais. Segundo o estudo The impact of peppermint oil on the irritable bowel syndrome, publicado no periódico BMC Complementary and Alternative Medicine e indexado no PubMed, o óleo de hortelã-pimenta mostrou-se significativamente superior ao placebo no alívio da dor abdominal e dos sintomas globais da síndrome do intestino irritável.
Esse tipo de análise, que reúne dados de múltiplos ensaios clínicos randomizados, é o padrão de referência para afirmar que uma planta tem efeito real, algo ainda não alcançado com a mesma solidez pelo boldo e pela espinheira-santa em estudos com humanos.
Quais plantas têm evidência real e quais são apenas tradição?
Considerando o corpo atual de pesquisas científicas sobre plantas voltadas ao aparelho digestivo, é possível organizar as opções mais populares em níveis distintos de comprovação:
- Hortelã-pimenta: evidência científica robusta, com ensaios clínicos e metanálises confirmando alívio de cólicas, gases e sintomas da síndrome do intestino irritável.
- Boldo-do-chile: evidência moderada, com estudos farmacológicos que apoiam o efeito colerético e o estímulo à digestão de gorduras, embora ensaios clínicos amplos ainda sejam escassos.
- Espinheira-santa: evidência preliminar, com bons resultados em estudos pré-clínicos para proteção gástrica, porém dados clínicos em humanos ainda limitados.
- Boldo-brasileiro: uso baseado principalmente na tradição popular, com pouca comprovação científica e possíveis riscos em uso prolongado.
- Hortelã comum de jardim: efeito digestivo mais suave que a hortelã-pimenta e menos estudado clinicamente, útil como chá reconfortante, mas sem a mesma força terapêutica.

Cuidados ao usar plantas medicinais no dia a dia
Mesmo com respaldo científico, plantas medicinais não são isentas de riscos e devem ser consumidas com atenção a dose, frequência e condições individuais. Interações com medicamentos, gravidez, amamentação e doenças crônicas são fatores que exigem cautela redobrada, assim como acontece com opções conhecidas de chás para gastrite.
Alguns pontos práticos merecem atenção antes de incluir essas plantas na rotina:
- Prefira produtos de origem confiável, com identificação botânica correta na embalagem.
- Respeite o tempo de uso recomendado, geralmente de curta duração para chás medicinais.
- Evite associar várias plantas com o mesmo efeito, o que aumenta o risco de reações adversas.
- Informe sempre o médico e o farmacêutico sobre o uso de qualquer planta medicinal.
- Suspenda o consumo diante de sintomas novos, como náuseas persistentes, dor intensa ou alterações na pele.
Sintomas digestivos frequentes, dor abdominal recorrente, perda de peso sem causa aparente, sangramentos ou azia persistente não devem ser tratados apenas com plantas ou chás caseiros, pois podem indicar condições que exigem investigação clínica adequada.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizado por um médico ou outro profissional de saúde qualificado.









