Deixar de sentir o aroma do café pela manhã ou não perceber o cheiro de comida queimando pode parecer só um efeito passageiro de uma gripe, mas a perda gradual do olfato merece atenção. Quando a redução é lenta, persistente e não está relacionada a uma infecção respiratória, o corpo pode estar dando um dos primeiros sinais silenciosos de doenças neurológicas como Parkinson e Alzheimer. Reconhecer essa mudança cedo abre caminho para uma avaliação médica precoce e para intervenções que fazem diferença no tempo de diagnóstico.
Por que a perda de olfato pode indicar um problema neurológico?
O olfato depende da mucosa do nariz, dos nervos olfatórios e de áreas do cérebro que processam os cheiros. Em doenças neurodegenerativas, as proteínas anormais que se acumulam no sistema nervoso costumam atingir primeiro o bulbo olfatório, região responsável por conduzir os estímulos até o cérebro.
Por isso, a hiposmia, ou redução da capacidade de sentir cheiros, pode surgir anos antes de sintomas motores como tremor no Parkinson ou perdas de memória mais evidentes no Alzheimer, servindo como um alerta biológico precoce.
Quando desconfiar que a perda de olfato é sinal de alerta?
A perda súbita ligada a um resfriado ou à Covid-19 costuma ser passageira e melhorar em semanas. Já a redução lenta, sem infecção recente, que persiste por meses e vem acompanhada de outros sinais neurológicos, deve ser investigada com atenção.
Vale procurar avaliação médica quando o problema aparece em pessoas acima dos 50 anos, se há dificuldade em identificar cheiros familiares, como café ou canela, ou quando surgem sintomas associados, como constipação intestinal persistente ou alterações do sono, que também podem indicar doenças neurodegenerativas em fase inicial.

Quais outras causas explicam a perda gradual do olfato?
Antes de pensar em causas neurológicas, é importante lembrar que a hiposmia tem várias origens. Reconhecer o cenário mais provável ajuda a direcionar a avaliação. Veja as principais causas:
- Rinite alérgica ou crônica: a inflamação persistente da mucosa nasal dificulta a chegada dos odores até os receptores.
- Sinusite crônica e pólipos: obstruem a passagem do ar e comprometem a percepção dos cheiros.
- Sequelas pós-Covid: parte das pessoas que tiveram Covid-19 apresenta redução prolongada do olfato.
- Envelhecimento natural: após os 60 anos, o número de receptores olfatórios diminui, reduzindo a sensibilidade a cheiros.
- Trauma craniano: pancadas na cabeça podem lesar os nervos olfatórios e provocar perda permanente.
- Doenças neurológicas: Parkinson e Alzheimer estão entre as causas mais investigadas quando a hiposmia aparece de forma gradual e persistente.
Diante desses cenários, o otorrinolaringologista é o profissional indicado para a avaliação inicial, e o neurologista deve ser consultado se houver suspeita de comprometimento neurológico ou sinais de condições clínicas associadas.
Como um estudo científico reforça essa relação?
A associação entre perda de olfato e doenças neurodegenerativas é hoje uma das áreas mais estudadas na neurologia. Segundo o estudo Olfaction as an Early Marker of Parkinsons Disease and Alzheimers Disease publicado no Handbook of Clinical Neurology e indexado no PubMed, a disfunção olfativa é um sinal comum e precoce das duas doenças, aparecendo antes dos sintomas típicos e correspondendo a alterações que já estão em curso no sistema nervoso.
Os autores destacam que a avaliação do olfato é acessível, de baixo custo e pode ajudar tanto no rastreio precoce quanto na diferenciação entre parkinsonismo e outras causas de comprometimento cognitivo, o que reforça a importância de valorizar a queixa quando ela persiste sem causa aparente.

O que fazer diante da perda persistente do olfato?
A conduta segura começa por não ignorar o sintoma e evitar o autotratamento com sprays ou suplementos por conta própria. Algumas medidas iniciais ajudam a investigar a causa. Veja as recomendações:
- Observe a evolução: anote há quanto tempo o olfato mudou, quais cheiros estão mais difíceis de identificar e se houve resfriado ou Covid-19 recente.
- Procure um otorrinolaringologista: profissional indicado para investigar causas nasais, como rinite, sinusite e pólipos.
- Considere avaliação neurológica: se a perda for gradual, persistente e vier com outros sinais, o neurologista deve ser consultado.
- Fique atento a sinais associados: alterações do sono, constipação frequente, mudanças de humor e falhas de memória merecem investigação.
- Adote hábitos saudáveis: não fumar, controlar pressão e diabetes e praticar atividade física ajudam a proteger o sistema nervoso e o olfato.
Perder o olfato de forma progressiva não deve ser tratado como algo natural ou sem importância. Apenas uma avaliação médica adequada, com otorrinolaringologista e, quando necessário, neurologista, pode identificar a causa real do problema e indicar o tratamento mais seguro para cada caso.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um profissional de saúde qualificado.









