A queimação no estômago que aparece com frequência costuma ser interpretada como gastrite, mas em muitos casos o real responsável é a doença do refluxo gastroesofágico, que atinge diretamente o esôfago. O retorno do conteúdo ácido do estômago irrita a mucosa esofágica e pode gerar complicações silenciosas, como esofagite e esôfago de Barrett, condição considerada pré-cancerosa. Reconhecer os sinais de alerta e procurar avaliação médica no momento certo faz diferença no diagnóstico precoce e evita a evolução para quadros mais graves.
Qual a diferença entre gastrite e refluxo gastroesofágico?
A gastrite é uma inflamação da mucosa do estômago, geralmente ligada à infecção por Helicobacter pylori, uso de anti-inflamatórios ou consumo excessivo de álcool. Já a doença do refluxo gastroesofágico, ou DRGE, ocorre quando o conteúdo ácido do estômago retorna ao esôfago, provocando irritação da parede desse órgão.
Embora ambas causem desconforto abdominal, a queimação atrás do peito, a regurgitação e a tosse noturna são mais típicas do refluxo. Segundo a Federação Brasileira de Gastroenterologia, muitos pacientes convivem com a DRGE achando que se trata apenas de gastrite, o que atrasa o tratamento adequado.
Como o refluxo pode afetar o esôfago?
O esôfago não possui revestimento preparado para resistir à acidez do estômago, e a exposição repetida ao ácido inflama sua mucosa, dando origem à esofagite. Quando essa inflamação persiste por anos, as células da parede do esôfago podem sofrer uma transformação chamada metaplasia, condição conhecida como esôfago de Barrett.
Essa alteração é considerada pré-cancerosa e aumenta o risco de adenocarcinoma esofágico, principalmente em homens acima dos 50 anos com histórico de refluxo prolongado. O diagnóstico e o acompanhamento periódico do esôfago de Barrett são essenciais para prevenir a progressão da doença.

Quais sintomas exigem atenção redobrada?
Nem toda queimação passageira é sinal de doença grave, mas alguns sintomas indicam que o refluxo pode estar comprometendo o esôfago. Fique atento aos seguintes sinais de alerta:
- Azia frequente: episódios de queimação atrás do peito mais de duas vezes por semana.
- Regurgitação ácida: sensação de retorno de líquido ou alimento à boca, principalmente após as refeições.
- Dificuldade para engolir: sensação de que a comida trava no meio do peito.
- Tosse crônica e rouquidão: sintomas persistentes sem causa respiratória clara.
- Perda de peso involuntária: emagrecimento sem mudança na dieta ou rotina.
- Vômitos com sangue ou fezes escurecidas: sinais de sangramento e emergência médica.
A presença desses sintomas exige avaliação com gastroenterologista o quanto antes.
O que a ciência mostra sobre o diagnóstico da doença do refluxo?
A investigação da DRGE é orientada por diretrizes internacionais que definem quando exames complementares devem ser solicitados. Segundo o estudo ACG Clinical Guideline for the Diagnosis and Management of Gastroesophageal Reflux Disease publicado na revista The American Journal of Gastroenterology, o diagnóstico costuma ser clínico quando há sintomas típicos de azia e regurgitação, com boa resposta ao tratamento com inibidores da bomba de prótons.
A diretriz reforça que a endoscopia digestiva alta é indicada em situações específicas, como presença de sinais de alarme, sintomas persistentes apesar do tratamento adequado ou histórico prolongado da doença. O exame permite avaliar a mucosa e identificar complicações como esofagite erosiva, estenose e esôfago de Barrett.

Quando a endoscopia digestiva é indicada?
A endoscopia é o exame de referência para avaliar a mucosa do esôfago e do estômago, mas não é solicitada em todo caso de queimação. Ela costuma ser recomendada nas seguintes situações:
- Sintomas de refluxo persistentes após oito semanas de tratamento com medicação adequada.
- Presença de sinais de alarme, como dificuldade para engolir, anemia e emagrecimento.
- Histórico familiar de câncer de esôfago ou estômago.
- Homens acima de 50 anos com sintomas crônicos de refluxo há mais de cinco anos.
- Suspeita de complicações como esofagite grave, estenose ou esôfago de Barrett.
Além da endoscopia, o médico pode solicitar pHmetria esofágica ou manometria em casos selecionados. O tratamento para refluxo deve ser sempre individualizado, considerando a intensidade dos sintomas, os achados dos exames e o perfil de cada paciente.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um profissional de saúde qualificado. Consulte sempre um médico de confiança.









