Cruzar uma perna sobre a outra é um gesto comum, muitas vezes automático, e vem acompanhado de uma dúvida antiga: será que esse hábito realmente prejudica a circulação e provoca varizes? A resposta da angiologia é mais equilibrada do que a crença popular sugere. Existem efeitos temporários e reais no fluxo sanguíneo, mas o desenvolvimento de varizes envolve outros fatores muito mais relevantes, como genética, gravidez e sedentarismo.
O que acontece com a circulação ao cruzar as pernas?
Quando uma perna é cruzada sobre a outra, especialmente na altura do joelho, há compressão de veias superficiais e do nervo fibular. Isso reduz momentaneamente o retorno venoso e pode causar formigamento, dormência ou sensação de peso após alguns minutos na mesma posição.
Esse efeito, no entanto, é reversível. Basta descruzar as pernas e movimentar os pés para o fluxo sanguíneo voltar ao normal em poucos segundos, sem consequência para a saúde vascular a longo prazo em pessoas sem doença venosa preexistente.
Cruzar as pernas causa varizes?
A Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular esclarece que cruzar as pernas, por si só, não causa varizes. As veias dilatadas surgem por falha nas válvulas venosas, um problema estrutural que tem forte componente hereditário e nem sempre está ligado à postura.
Ficar muitas horas na mesma posição, seja sentado ou em pé, é o que realmente dificulta o retorno venoso e favorece o aparecimento de varizes. O gesto de cruzar as pernas é apenas um agravante circunstancial quando associado à imobilidade prolongada.

Como um estudo mediu o efeito de cruzar as pernas na pressão arterial?
Embora as varizes não sejam causadas diretamente pelo hábito, a pesquisa mostrou que cruzar as pernas produz efeitos hemodinâmicos mensuráveis, principalmente na pressão arterial. Esse é um dos motivos pelos quais médicos pedem que o paciente mantenha os pés no chão durante a aferição.
Segundo o estudo The effect of crossing legs on blood pressure, publicado na revista científica Journal of Hypertension, cruzar as pernas na altura do joelho aumentou a pressão sistólica em cerca de 8 a 10 mmHg e a diastólica em torno de 3 a 5 mmHg em voluntários saudáveis e hipertensos. Trata-se de uma alteração temporária, que volta ao normal ao descruzar as pernas, mas suficiente para superestimar o risco cardiovascular durante a medida.
Quais são os verdadeiros fatores de risco para varizes?
O desenvolvimento das varizes envolve múltiplos fatores que atuam ao longo dos anos, sendo a genética o mais importante. A postura sozinha tem participação secundária no quadro. Entre os principais fatores reconhecidos pela angiologia estão:
- Histórico familiar de varizes ou insuficiência venosa crônica, que aumenta em várias vezes o risco individual;
- Sexo feminino e alterações hormonais, incluindo uso de anticoncepcionais, terapia de reposição hormonal e menopausa;
- Gestação, pelo aumento do volume sanguíneo e pela pressão do útero sobre as veias pélvicas;
- Sedentarismo e permanência prolongada em pé ou sentado, situações que sobrecarregam o retorno venoso;
- Excesso de peso e obesidade, que aumentam a pressão sobre as veias dos membros inferiores;
- Envelhecimento, associado à perda natural da elasticidade das paredes venosas ao longo dos anos.

Quando o desconforto nas pernas exige avaliação médica?
Pernas cansadas, pesadas ou levemente inchadas ao final de um dia longo costumam ser passageiras e melhoram com repouso, hidratação e elevação dos membros. Não indicam, por si sós, doença vascular estabelecida.
Já sintomas como dor persistente, inchaço unilateral, veias visíveis e tortuosas, escurecimento da pele, coceira ou queimação frequente merecem avaliação com um angiologista ou cirurgião vascular. O diagnóstico precoce da insuficiência venosa evita complicações como úlceras e tromboses.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de um profissional de saúde qualificado.









