Ter peso normal na balança nem sempre significa estar livre de riscos cardiovasculares. Uma parcela significativa de pessoas magras carrega gordura visceral acumulada ao redor de órgãos como fígado, pâncreas e intestinos, um fenômeno que a ciência batizou de TOFI, sigla em inglês para thin outside, fat inside. A Sociedade Brasileira de Cardiologia alerta que esse perfil pode ter risco metabólico comparável ao de pessoas obesas, mesmo quando o IMC está dentro da faixa considerada saudável.
O que é a gordura escondida em pessoas magras?
A gordura visceral é aquela que se acumula profundamente na cavidade abdominal, envolvendo órgãos vitais. Diferente da gordura subcutânea, que fica logo abaixo da pele e pode ser pinçada com os dedos, ela é invisível no espelho e não aparece na balança comum.
Em pessoas magras, esse acúmulo costuma se dar sem sinais externos claros. A silhueta permanece esguia, o peso segue dentro da faixa considerada saudável, mas o funcionamento metabólico começa a se alterar de forma silenciosa.
Por que o peso normal pode enganar?
A balança soma tudo que existe no corpo, incluindo músculos, ossos e água. Uma pessoa com pouca massa muscular e muita gordura visceral pode ter o mesmo peso de alguém saudável e ativo, mas com composição corporal completamente diferente.
É por isso que ferramentas como o IMC têm limitações reconhecidas pela própria OMS. Sozinhas, elas não conseguem distinguir se o peso vem de músculo ou de gordura, nem onde essa gordura está distribuída no corpo.

Como um estudo científico mostra o risco desse perfil?
A evidência mais citada sobre o tema veio de uma análise robusta com mais de 6 mil adultos americanos. Segundo o estudo Normal weight obesity: a risk factor for cardiometabolic dysregulation and cardiovascular mortality, publicado no periódico European Heart Journal, pessoas com IMC normal mas alto percentual de gordura corporal apresentaram maior prevalência de síndrome metabólica e, em mulheres, aumento significativo da mortalidade cardiovascular.
Os autores concluíram que a chamada obesidade de peso normal é frequentemente subdiagnosticada porque a maioria dos consultórios ainda se baseia apenas no IMC. O achado reforça a importância de avaliar composição corporal, e não só o número da balança.
Quais sinais podem indicar gordura visceral escondida?
Como o problema é silencioso, ele costuma ser percebido apenas por exames ou por sinais indiretos. Alguns achados no dia a dia e em check-ups podem levantar suspeita e justificar investigação mais detalhada:
- Circunferência abdominal aumentada: acima de 80 cm em mulheres ou 94 cm em homens, mesmo com peso normal
- Sedentarismo e pouca massa muscular: braços e pernas finos combinados com abdômen proeminente
- Triglicerídeos altos e HDL baixo: alterações típicas do perfil lipídico associado à gordura visceral
- Glicemia de jejum no limite superior: sinal precoce de resistência à insulina
- Pressão arterial no limite ou elevada: mesmo em pessoas magras e sem histórico familiar
- Esteatose hepática em ultrassom: gordura no fígado detectada em exame de rotina
- Cansaço frequente e sonolência após refeições: possíveis sinais de disfunção metabólica
A presença de vários desses sinais em conjunto reforça a necessidade de investigação, mesmo quando o peso parece adequado.

Como reduzir a gordura visceral sem foco na balança?
A boa notícia é que a gordura visceral costuma responder rápido a mudanças no estilo de vida, mesmo em pessoas magras. O foco não deve ser perder peso, mas melhorar composição corporal e saúde metabólica. Algumas estratégias com respaldo científico ajudam:
- Incluir treino de força pelo menos 2 a 3 vezes por semana para aumentar a massa muscular
- Praticar exercícios aeróbicos regulares, como caminhada rápida, corrida ou pedalada
- Priorizar alimentos in natura, com fibras, proteínas magras e gorduras boas
- Reduzir açúcar refinado, ultraprocessados, frituras e bebidas alcoólicas
- Dormir de 7 a 9 horas por noite, já que o sono ruim aumenta o cortisol e a gordura localizada na região abdominal
- Controlar o estresse crônico com atividades relaxantes ou apoio psicológico
- Combinar aeróbico e musculação em exercícios para perder gordura visceral, potencializando os resultados
Exames como bioimpedância, ultrassom abdominal e circunferência da cintura ajudam a acompanhar o progresso de forma mais fiel do que apenas o peso na balança.
As informações deste artigo têm caráter apenas informativo e educativo, e não substituem a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um médico ou nutricionista. Consulte sempre um profissional de saúde de sua confiança para avaliação individualizada da sua composição corporal e saúde metabólica.









