Durante muitos anos, a reposição hormonal na menopausa foi cercada por receios, principalmente após estudos que apontaram riscos importantes no início dos anos 2000. Hoje, os especialistas têm uma visão mais individualizada. Para muitas mulheres saudáveis com menos de 60 anos ou até dez anos após o início da menopausa, os benefícios do tratamento podem superar os riscos, especialmente quando existem sintomas que prejudicam a qualidade de vida. Isso não significa que os hormônios sejam indicados para todas.
Por que a reposição hormonal passou a ser vista com desconfiança?
A preocupação ganhou força em 2002, quando resultados do estudo Women’s Health Initiative (WHI), realizado nos Estados Unidos, apontaram aumento de determinados riscos, incluindo câncer de mama com uma combinação de estrogênio e progestagênio. Outro braço do estudo, interrompido em 2004, identificou maior risco de acidente vascular cerebral com estrogênio isolado.
Os resultados mudaram a maneira como o tratamento era prescrito, mas havia diferenças importantes entre as participantes e as mulheres que normalmente procuravam ajuda para os sintomas da menopausa. A idade média no WHI era de aproximadamente 63 anos, enquanto muitas mulheres apresentam calorões e outros desconfortos antes disso. Análises posteriores ajudaram a compreender que idade, momento de início e tipo de tratamento influenciam a avaliação dos riscos.
O que os especialistas recomendam atualmente?
O posicionamento de 2022 da North American Menopause Society sobre terapia hormonal, entidade atualmente chamada The Menopause Society, considera favorável a relação entre benefícios e riscos para muitas mulheres saudáveis com sintomas importantes, especialmente antes dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após a menopausa, desde que não existam contraindicações.
Essa mudança não significa que os perigos identificados anteriormente tenham desaparecido. A recomendação atual é avaliar cada situação, considerando sintomas, histórico de saúde, dose, duração e forma de administração. Iniciar a terapia depois dos 60 anos ou mais de dez anos após a menopausa geralmente exige maior cautela, porque os riscos absolutos de problemas cardiovasculares, trombose e outros eventos tendem a ser maiores.

Quais benefícios justificam considerar o tratamento?
A terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para ondas de calor e suores noturnos que afetam o sono e a rotina. Também pode melhorar sintomas geniturinários e ajudar a prevenir a perda óssea e fraturas. Entretanto, o objetivo não é simplesmente repor todos os hormônios que diminuem com a idade, mas tratar necessidades específicas.
Entre as situações que podem justificar uma avaliação médica estão:
- Calorões intensos: episódios frequentes que prejudicam o descanso, o trabalho ou as atividades diárias.
- Suores noturnos: desconfortos que interrompem o sono e comprometem a qualidade de vida.
- Ressecamento vaginal: sintomas que podem ser tratados com estrogênio vaginal de baixa dose, sem necessidade de terapia sistêmica em muitos casos.
- Perda óssea: situações em que a proteção dos ossos pode fazer parte da decisão terapêutica.
O tratamento, porém, não deve ser utilizado apenas para prevenir infarto, demência ou envelhecimento. A terapia de reposição hormonal pode envolver comprimidos, adesivos, géis ou preparações vaginais, conforme a indicação e as características de cada mulher.
Os riscos da reposição hormonal continuam existindo?
Sim. Trombose, acidente vascular cerebral e determinados riscos relacionados ao câncer continuam fazendo parte da avaliação médica. Mulheres com histórico de câncer de mama sensível a hormônios, trombose, infarto, AVC ou sangramento vaginal sem explicação, por exemplo, podem ter contraindicações importantes. Quem possui útero geralmente precisa associar proteção progestagênica ao estrogênio sistêmico para reduzir o risco de câncer do endométrio.
Outro ponto é que a via de administração importa. Adesivos e géis de estrogênio podem apresentar menor risco de trombose do que formulações orais, embora não sejam isentos de riscos. Nos Estados Unidos, a FDA também aprovou, em fevereiro de 2026, mudanças nos alertas destacados de alguns produtos hormonais. Conforme a orientação atualizada do órgão de saúde das mulheres dos Estados Unidos, os riscos continuam descritos em outras partes das bulas, e a mudança não equivale a declarar o tratamento universalmente seguro.

Como saber se a reposição hormonal é uma boa opção?
A decisão deve ser tomada em consulta com o ginecologista, considerando a intensidade dos sintomas, idade, tempo desde a menopausa, histórico pessoal e familiar e fatores de risco cardiovasculares. O médico também avalia a necessidade de proteção do endométrio, a apresentação mais adequada e as alternativas não hormonais disponíveis.
A visão atual não é de liberar a reposição para todas nem de evitá-la automaticamente. Quando indicada, a terapia exige acompanhamento e reavaliações periódicas para verificar se os benefícios continuam compensando os riscos. Mulheres que não podem ou não desejam utilizar hormônios também podem receber tratamentos específicos para seus sintomas.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação individualizada de um médico. Não inicie, interrompa ou modifique tratamentos hormonais sem orientação profissional.









