Usar aparelho auditivo pode trazer benefícios que vão além de escutar melhor. Um estudo clínico encontrou indícios de que tratar a perda de audição ajuda a desacelerar o declínio cognitivo em idosos com maior risco de apresentar dificuldades de memória e raciocínio. No entanto, o resultado não apareceu quando todos os participantes foram analisados juntos. Essa diferença é fundamental para entender o que a pesquisa realmente descobriu.
O que o estudo descobriu sobre o aparelho auditivo e a memória?
O estudo ACHIEVE, publicado na revista científica The Lancet em 2023, acompanhou 977 adultos entre 70 e 84 anos que apresentavam perda auditiva não tratada. Os pesquisadores compararam pessoas que receberam aparelhos auditivos, orientações e acompanhamento especializado com participantes que receberam educação sobre envelhecimento saudável.
De acordo com os resultados do ensaio clínico ACHIEVE, após três anos, não houve diferença significativa no declínio cognitivo quando todos os participantes foram considerados. Entretanto, em uma análise previamente planejada, o grupo de 238 idosos que já apresentava maior risco de declínio cognitivo teve uma redução de 48% na mudança cognitiva medida durante o acompanhamento. Esse percentual não representa uma redução de 48% nos casos de demência.

Por que ouvir melhor pode fazer diferença para o cérebro?
Quando uma pessoa apresenta perda de audição, acompanhar uma conversa pode exigir mais esforço. O cérebro precisa trabalhar para distinguir palavras, interpretar sons e compreender informações, principalmente em ambientes movimentados. Isso pode dificultar a atenção e fazer com que algumas situações sejam confundidas com falhas de memória.
Também existe uma possível relação com a convivência social. Quem não consegue acompanhar conversas pode começar a evitar reuniões familiares, telefonemas e outras atividades. Os pesquisadores investigam se melhorar a audição pode diminuir esse esforço e favorecer a participação social, preservando estímulos importantes para o funcionamento cognitivo. Essas são explicações possíveis, mas o estudo não demonstrou qual mecanismo produziu o benefício observado.
O benefício acontece com todos os idosos?
Não necessariamente. Essa é uma das principais limitações do estudo. Os participantes vieram de duas populações diferentes: uma formada por idosos acompanhados anteriormente em uma pesquisa cardiovascular, com maior risco de declínio cognitivo, e outra composta por voluntários da comunidade que apresentavam menor risco inicial.
O benefício apareceu no primeiro grupo, mas não foi identificado de forma significativa entre os 739 voluntários da segunda população. Uma análise secundária do ACHIEVE publicada em 2025 também encontrou benefícios cognitivos mais expressivos entre participantes com múltiplos fatores de risco. Esses resultados reforçam que o efeito pode depender das características de cada pessoa e não autorizam afirmar que o aparelho auditivo previne demência ou interrompe a perda de memória em todos os idosos.
Quais sinais indicam que está na hora de avaliar a audição?
A perda auditiva costuma se desenvolver gradualmente, fazendo com que a própria pessoa nem sempre perceba a mudança. Familiares podem notar dificuldades antes, especialmente durante conversas em grupo ou ao assistir à televisão.
Alguns sinais que merecem atenção são:
- Pedir para repetir frases: dificuldade frequente para compreender o que outras pessoas dizem.
- Aumentar muito o volume da televisão: necessidade de sons mais altos para acompanhar programas e conversas.
- Não entender conversas em locais barulhentos: dificuldade para distinguir palavras em restaurantes ou reuniões.
- Evitar encontros sociais: afastamento de atividades porque acompanhar diálogos se tornou cansativo.
Essas mudanças podem estar associadas à perda auditiva, mas não confirmam o diagnóstico isoladamente. A avaliação com otorrinolaringologista e fonoaudiólogo ajuda a identificar a causa e a necessidade de tratamento.

Vale a pena usar aparelho auditivo pensando na memória?
Quando existe indicação profissional, o aparelho auditivo pode melhorar a compreensão da fala, facilitar conversas e contribuir para a autonomia, independentemente de um possível benefício cognitivo. A audiometria ajuda a identificar o tipo e o grau da perda de audição, orientando a escolha do dispositivo e os ajustes necessários. A adaptação costuma exigir acompanhamento para alcançar resultados satisfatórios.
O ACHIEVE oferece uma perspectiva promissora para idosos com maior risco de declínio cognitivo, mas não demonstrou que o aparelho auditivo evita demência ou recupera memórias já perdidas. Quando há esquecimentos persistentes ou mudanças no comportamento, é necessário investigar outras possíveis causas, mesmo que a pessoa também tenha dificuldade para ouvir.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um médico ou fonoaudiólogo. Alterações persistentes da memória e da audição devem ser investigadas por profissionais de saúde.









