Evitar o excesso de açúcar nos primeiros anos de vida pode ter efeitos que aparecem décadas depois. Estudos que aproveitaram o fim do racionamento de açúcar no Reino Unido encontraram menor risco de obesidade e de ansiedade entre pessoas expostas a menos açúcar desde a gestação e durante a primeira infância. Os resultados são importantes, mas não provam que o açúcar, sozinho, determine o peso ou a saúde mental no futuro.
O que o racionamento britânico permitiu descobrir?
O Reino Unido manteve o açúcar racionado por anos após a Segunda Guerra Mundial. Quando a restrição terminou, em setembro de 1953, o consumo aumentou rapidamente. Essa mudança criou uma espécie de experimento natural: pesquisadores puderam comparar pessoas que passaram a gestação e os primeiros anos sob o racionamento com outras nascidas pouco depois, quando o açúcar já estava mais disponível.
Um estudo publicado na revista Science analisou os primeiros mil dias, da concepção até aproximadamente os 2 anos de idade. Esse período chama atenção porque inclui fases importantes do desenvolvimento metabólico e a introdução dos alimentos além do leite.
O que apareceu em relação ao peso no futuro?
No estudo da Science, a exposição ao racionamento durante a gestação e por mais de um ano após o nascimento esteve associada a um risco aproximadamente 30% menor de receber diagnóstico de obesidade na vida adulta. Os pesquisadores também encontraram menor frequência de uma relação cintura-altura elevada, embora não tenham observado diferenças relevantes em todas as medidas corporais analisadas.
Isso ajuda a evitar uma interpretação exagerada: limitar açúcar na infância não determina quanto uma pessoa vai pesar décadas depois. Peso corporal depende de genética, alimentação ao longo da vida, atividade física, sono, condições sociais, doenças e vários outros fatores. O estudo sugere que a exposição alimentar muito precoce pode ser uma das peças desse conjunto.

E o que os pesquisadores encontraram sobre ansiedade?
Outra pesquisa, publicada em 2026, analisou dados de 66.223 participantes do UK Biobank usando o mesmo contexto histórico. A menor exposição ao açúcar durante os primeiros mil dias esteve associada a um risco cerca de 23% menor de diagnóstico de ansiedade ao longo da vida. Também foi observada associação com menor risco de depressão.
Os resultados foram mais favoráveis entre aqueles que permaneceram expostos ao racionamento durante todo esse período inicial, e não apenas durante a gestação. Isso levanta a hipótese de que a alimentação após o nascimento também possa ter importância para resultados de saúde muito mais tarde.
Isso significa que comer açúcar na infância causa ansiedade?
Não. Esse é justamente o limite mais importante desses achados. Apesar de o fim abrupto do racionamento permitir comparações interessantes entre grupos semelhantes, os participantes não foram sorteados para consumir mais ou menos açúcar. Outros aspectos do contexto familiar, alimentar e social daquela época podem ter contribuído para as diferenças observadas.
Também não existe uma explicação única capaz de ligar diretamente açúcar e ansiedade. Os pesquisadores discutem possíveis caminhos envolvendo desenvolvimento metabólico, preferências alimentares e saúde ao longo da vida, mas esses mecanismos ainda precisam ser estudados. Portanto, os resultados devem ser entendidos como associações de longo prazo, e não como prova de que o açúcar isoladamente causa transtornos mentais.

Como reduzir açúcar nos primeiros anos sem exagerar nas restrições?
No Brasil, a orientação atual já é evitar açúcar adicionado nos primeiros dois anos. O Ministério da Saúde recomenda não oferecer preparações ou produtos com açúcar antes dos 2 anos, priorizando alimentos in natura ou minimamente processados e água no lugar de bebidas açucaradas. O Tua Saúde também reúne exemplos de alimentos que devem ser evitados na alimentação do bebê.
Isso se refere principalmente ao açúcar adicionado em doces, biscoitos, refrigerantes, bebidas adoçadas e outras preparações, e não ao açúcar naturalmente presente em frutas inteiras. Depois dos 2 anos, a proposta também não é transformar doces em alimentos proibidos, mas evitar que produtos muito açucarados ocupem espaço frequente na alimentação.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui orientação do pediatra ou nutricionista. A alimentação infantil deve considerar idade, crescimento, desenvolvimento e necessidades individuais de cada criança.









