A pressão arterial de quem passou dos 60 anos já foi tratada com mais tolerância. Por décadas, valores de 140 ou até 150 mmHg eram aceitos como parte natural do envelhecimento. Hoje os cardiologistas leem esses números de outro jeito, porque a hipertensão sem controle aumenta o risco de infarto, AVC e insuficiência renal nessa fase da vida.
Por que a meta pressórica mudou para quem passou dos 60?
A lógica antiga dizia que artérias mais rígidas precisavam de uma pressão maior para irrigar o cérebro e os rins. Essa ideia levou muitos médicos a aceitar uma sistólica alta em idosos, com medo de provocar tontura e quedas. Ensaios clínicos das últimas duas décadas mostraram outra realidade: baixar a pressão com cuidado reduz eventos cardiovasculares também nessa faixa etária.
Com base nesses dados, a Sociedade Brasileira de Cardiologia revisou suas recomendações na Diretriz Brasileira de Hipertensão de 2025. A meta pressórica ficou mais exigente, e a idade sozinha deixou de ser motivo para tolerar números elevados.
O que as pesquisas recentes revelam sobre alvos mais baixos?
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 comparou hipertensos com 75 anos ou mais tratados com alvos diferentes de pressão. Os resultados apontaram benefício de manter a sistólica abaixo de 130 mmHg em relação a metas mais altas. O dado chama atenção porque envolve justamente o grupo que antes era considerado frágil demais para um controle rigoroso.

Quais valores a Diretriz Brasileira de Hipertensão recomenda hoje?
O documento publicado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia trouxe referências mais claras para o consultório. Para a maioria dos pacientes, incluindo pessoas na terceira idade com boa condição clínica, os pontos principais são:
- Pressão arterial abaixo de 130/80 mmHg como alvo geral, desde que o tratamento seja bem tolerado.
- Sistólica entre 120 e 139 ou diastólica entre 80 e 89 classificadas como pré-hipertensão.
- Mudanças de hábitos já na pré-hipertensão, com menos sal, atividade física e controle do peso.
- Combinação de anti-hipertensivos em doses baixas para atingir o alvo com menos efeitos colaterais.
Na prática, o cardiologista avalia sintomas, outras doenças e os remédios em uso antes de definir o número ideal. Antes da consulta, ajuda conhecer os sinais da hipertensão no idoso, que muitas vezes passam despercebidos por anos.
Quando o alvo precisa ser mais flexível?
Nem todo paciente mais velho se beneficia da mesma meta. As recomendações orientam individualizar o tratamento em situações como:
- Fragilidade, com perda de peso sem explicação, fraqueza e lentidão para caminhar.
- Histórico de quedas ou hipotensão ortostática, que é a queda da pressão ao levantar.
- Demência avançada ou dependência para atividades básicas, como tomar banho e se vestir.
- Expectativa de vida reduzida por outras doenças graves.
Uma análise complementar com cerca de 21 mil idosos apontou menos eventos cardiovasculares com o controle intensivo, sem aumento claro de efeitos adversos. Ainda assim, tontura, sonolência ou confusão mental depois de um ajuste de remédio devem ser relatadas ao médico, que pode rever a dose.
Medir a pressão em casa ajuda a chegar ao alvo
A medição residencial mostra valores que o consultório nem sempre capta. Algumas pessoas têm a pressão elevada só diante do médico, no chamado efeito do avental branco. Outras vivem o inverso, com números normais na consulta e altos no dia a dia.
O ideal é usar um aparelho automático de braço validado e ficar sentado por 5 minutos antes da aferição. Anote duas medidas pela manhã e duas à noite durante cerca de uma semana. Café, cigarro e exercício na meia hora anterior alteram o resultado.
O que levar para a próxima consulta com o cardiologista?
O registro das medições domiciliares, a lista completa de medicamentos e os episódios de tontura ajudam o médico a definir a meta pressórica certa para cada caso. Depois dos 60, manter a pressão arterial abaixo de 130/80 mmHg, quando o corpo tolera bem, significa menor chance de AVC e infarto, além de proteger rins e coração da sobrecarga.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o acompanhamento de um profissional de saúde. Se você tem hipertensão ou dúvidas sobre o seu tratamento, converse com seu médico antes de mudar qualquer medicação.









