A parte roxa da jabuticaba, muitas vezes descartada por ser mais adstringente, chamou a atenção de pesquisadores da Unicamp por seus possíveis efeitos metabólicos. Em um ensaio clínico com 49 pessoas com síndrome metabólica, o consumo diário de 15 gramas de um suplemento feito com a casca durante cinco semanas melhorou um parâmetro relacionado à glicose após as refeições. O resultado é promissor, mas não significa que a casca trate diabetes ou dispense alimentação equilibrada, exercícios e acompanhamento médico.
O que o estudo da Unicamp encontrou?
A pesquisa, publicada em 2024 na revista Nutrition Research, dividiu 49 adultos com síndrome metabólica entre um grupo que recebeu 15 gramas por dia de pó de casca de jabuticaba e outro que recebeu placebo. Ao final de cinco semanas, os pesquisadores observaram melhora na área sob a curva da glicose, medida que mostra como a concentração de açúcar no sangue varia ao longo do tempo após uma refeição.
O ensaio clínico sobre casca de jabuticaba e metabolismo da glicose também encontrou redução de interleucina-6, um marcador relacionado à inflamação. Por outro lado, não houve diferença significativa entre os grupos em peso corporal, pressão arterial, composição corporal, metabolismo dos lipídios ou índices de sensibilidade e resistência à insulina.
Por que a casca da jabuticaba pode interferir na glicemia?
A casca concentra fibras e compostos fenólicos, incluindo antocianinas, pigmentos responsáveis pela coloração arroxeada da fruta. Essas substâncias vêm sendo estudadas por sua interação com vias relacionadas ao metabolismo da glicose e à inflamação. A própria jabuticaba pode ser consumida com a casca, que concentra fibras e diferentes compostos bioativos.
Segundo Mário Roberto Maróstica Junior, professor da Unicamp e coordenador da investigação, trabalhos anteriores já sugeriam efeitos desses componentes sobre o metabolismo da glicose. A novidade do ensaio foi observar o consumo por várias semanas e identificar uma resposta também no período posterior à refeição, quando a glicemia normalmente aumenta.

Isso significa que comer casca de jabuticaba baixa a glicose?
Ainda não é possível fazer essa afirmação de forma geral. O estudo avaliou um grupo pequeno e específico, formado por pessoas com síndrome metabólica e obesidade, e utilizou uma quantidade padronizada de pó de casca de jabuticaba. Portanto, os resultados não permitem garantir que simplesmente comer a fruta inteira produza o mesmo efeito ou que a estratégia funcione da mesma forma em pessoas saudáveis ou com diabetes.
A própria Unicamp destacou os limites práticos do achado. Nas palavras de Maróstica Junior, “a casca da jabuticaba não faz milagre”. O pesquisador explica que ela deve ser entendida como uma possível forma de auxiliar a modulação da glicemia, associada a outras medidas de estilo de vida.
Como aproveitar melhor a casca da fruta?
Para quem já consome jabuticaba, uma maneira simples de aproveitar seus componentes é comer a fruta bem higienizada junto com a casca, em vez de descartar essa parte. Ela também pode ser utilizada em preparações caseiras, mas isso é diferente do suplemento padronizado empregado no estudo e não há uma dose de casca fresca estabelecida para controlar a glicemia.
- prefira consumir a fruta inteira, quando possível;
- não substitua medicamentos por jabuticaba ou por produtos feitos com a casca;
- evite interpretar os 15 gramas usados na pesquisa como uma recomendação diária para todas as pessoas;
- mantenha alimentação equilibrada e atividade física como parte do controle metabólico.

Quem tem glicose alta pode usar a casca como tratamento?
Não. A pesquisa indica um possível efeito complementar, e não um tratamento isolado. Pessoas com pré-diabetes, diabetes ou síndrome metabólica precisam manter o acompanhamento indicado e não devem alterar medicamentos ou outras condutas com base nesse resultado.
O estudo amplia o interesse pela casca de uma fruta brasileira que normalmente seria descartada, mas novas pesquisas, com mais participantes e períodos mais longos, ainda são necessárias para entender a relevância clínica do efeito e como ele poderia ser aplicado na alimentação habitual.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui avaliação ou orientação de um profissional de saúde.









