O refluxo gastroesofágico pode ter efeitos além da azia e da queimação no peito. Uma revisão sistemática com meta-análise encontrou associação entre a doença e indicadores de cárie e alterações periodontais em adultos. A exposição repetida da boca ao conteúdo ácido do estômago é um mecanismo possível, mas os resultados não permitem afirmar que o refluxo sozinho cause esses problemas, já que alimentação, higiene, saliva e outros fatores também interferem na saúde bucal.
Como o refluxo pode chegar até os dentes?
No refluxo gastroesofágico, parte do conteúdo do estômago retorna para o esôfago e, em alguns episódios, pode alcançar a boca. Como esse material é ácido, exposições repetidas podem diminuir temporariamente o pH da cavidade oral e contribuir para a perda de minerais da superfície dos dentes.
A saliva normalmente ajuda a neutralizar ácidos e proteger o esmalte. Alterações no fluxo ou na capacidade de neutralização da saliva, somadas à frequência do refluxo, à dieta e à higiene oral, podem modificar esse equilíbrio. Por isso, a relação entre refluxo e problemas dentários é mais complexa do que simplesmente dizer que o ácido do estômago provoca cárie.
O que a nova revisão encontrou?
A Association between gastroesophageal reflux disease and peptic ulcer in adults and the development of periodontal changes and dental caries, revisão sistemática e meta-análise publicada na edição de setembro de 2026 do Journal of Evidence-Based Dental Practice, reuniu 19 estudos sobre refluxo, úlcera péptica e saúde bucal.
- cinco estudos mostraram índice DMFT, que considera dentes cariados, perdidos e restaurados, em média 0,79 ponto maior entre pessoas com refluxo;
- duas análises encontraram índice papilar, marginal e alveolar mais elevado, medida relacionada às condições da gengiva;
- duas análises também encontraram pior índice simplificado de higiene oral entre participantes com refluxo;
- estudos individuais incluídos na revisão relataram relações entre refluxo, cárie e doença periodontal;
- apenas 10 dos 19 estudos forneceram dados que puderam ser combinados nas meta-análises.
Esses resultados indicam uma associação, mas não mostram que cada pessoa com refluxo necessariamente desenvolverá cárie ou doença da gengiva.

Por que não dá para culpar apenas o ácido?
A cárie é uma doença multifatorial. Bactérias da boca metabolizam açúcares e produzem ácidos que retiram minerais do dente, enquanto fatores como frequência de açúcar, exposição ao flúor, produção de saliva e higiene influenciam o risco.
O mesmo cuidado vale para as alterações periodontais. A periodontite está principalmente relacionada ao acúmulo de biofilme bacteriano e à resposta inflamatória ao redor dos dentes. Tabagismo, diabetes, higiene e outros fatores podem participar tanto da saúde periodontal quanto das diferenças observadas entre pessoas com e sem refluxo.
Quais sinais na boca merecem atenção?
Quem apresenta refluxo frequente pode observar alterações bucais e manter acompanhamento odontológico, especialmente quando surgem sintomas persistentes.
- sensibilidade frequente ao frio, calor ou alimentos ácidos;
- desgaste ou mudança na aparência da superfície dos dentes;
- novas cáries ou necessidade recorrente de restaurações;
- gengiva vermelha, inchada ou que sangra com frequência;
- mau hálito persistente;
- dor ao mastigar ou mobilidade dos dentes.
Esses sinais não permitem diagnosticar refluxo nem provar que ele seja a causa do problema. O dentista pode identificar o tipo de alteração e investigar outros fatores envolvidos.
Para entender por que o conteúdo do estômago retorna e como o refluxo pode ser controlado, veja este vídeo do Tua Saúde.
Controlar o refluxo protege a boca?
Tratar o refluxo é importante para controlar sintomas e evitar complicações digestivas, mas a revisão não demonstrou que tratar a doença, isoladamente, previna cáries ou problemas periodontais. A melhor estratégia continua sendo cuidar das duas frentes, mantendo o tratamento indicado para o refluxo e uma rotina adequada de higiene e acompanhamento odontológico.
Azia e regurgitação frequentes devem ser avaliadas por gastroenterologista, enquanto sensibilidade persistente, desgaste dos dentes, cáries recorrentes ou sangramento da gengiva justificam consulta com dentista. A presença das duas situações pode exigir acompanhamento conjunto para identificar os fatores envolvidos e definir os cuidados mais adequados.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por um profissional de saúde.









