Dormir e acordar em horários muito diferentes de um dia para o outro foi associado a maior risco de algumas doenças oculares relacionadas ao envelhecimento. Em um grande estudo com dados do UK Biobank, menor regularidade do sono apareceu ligada a catarata, glaucoma e degeneração macular relacionada à idade. O resultado não prova que horários irregulares causem essas doenças, mas chama atenção para uma característica do sono que vai além de simplesmente contar quantas horas uma pessoa dorme.
Como os pesquisadores mediram a regularidade do sono?
O estudo Sleep regularity and age-related eye diseases, publicado em 2026 e integrante da edição de setembro da revista Sleep, acompanhou 78.839 adultos do UK Biobank. A regularidade foi estimada objetivamente a partir de dados registrados por acelerômetros usados pelos participantes.
Os pesquisadores calcularam o chamado índice de regularidade do sono, que varia de 0 a 100 e considera a probabilidade de a pessoa estar dormindo ou acordada nos mesmos horários em dias consecutivos. Quanto maior o índice, mais previsível é o padrão de sono e vigília. Portanto, ele avalia algo diferente da duração total do sono.
Quais problemas nos olhos foram associados ao sono irregular?
Durante a análise prospectiva, menor regularidade esteve associada a algumas, mas não a todas as doenças oculares avaliadas:
- Degeneração macular relacionada à idade, que afeta a região central da retina;
- catarata, caracterizada pela perda de transparência do cristalino;
- glaucoma, grupo de doenças que pode provocar danos progressivos ao nervo óptico;
- oclusão da veia da retina, para a qual não foi encontrada associação robusta;
- retinopatia diabética, que também não apresentou uma associação robusta com a regularidade do sono.
As associações com degeneração macular, catarata e glaucoma permaneceram em análises que consideraram diferentes fatores clínicos e comportamentais. Isso reforça o sinal encontrado, mas ainda não permite concluir que tornar o horário de sono mais regular previna essas doenças.

Por que os pesquisadores olharam também para a retina?
Além dos diagnósticos, o estudo avaliou características estruturais e vasculares dos olhos para investigar se a regularidade do sono também se relacionava a sinais mensuráveis na retina:
- maior regularidade foi associada a maior espessura da região macular;
- também houve associação com maior espessura da camada de células ganglionares da retina;
- a camada de fibras nervosas da retina apresentou padrão semelhante;
- medidas da geometria dos vasos da retina foram mais favoráveis entre pessoas com sono mais regular;
- o índice de regularidade também foi menor conforme aumentava o número de doenças oculares presentes na mesma pessoa.
A retina é um tecido nervoso metabolicamente ativo e influenciado pelos ritmos circadianos, mas os mecanismos que poderiam ligar sono irregular e envelhecimento ocular ainda não estão estabelecidos. Alterações metabólicas e inflamatórias estão entre as hipóteses investigadas e não devem ser interpretadas como uma explicação causal já comprovada.
Veja também como funciona o glaucoma e por que o acompanhamento oftalmológico é importante.
Regularizar o sono pode proteger os olhos?
O estudo não consegue responder essa pergunta diretamente. Por ser observacional, ele identifica uma associação ao longo do tempo, mas não demonstra que a irregularidade do sono tenha provocado catarata, glaucoma ou degeneração macular. Características de saúde e estilo de vida podem influenciar tanto o padrão de sono quanto o risco dessas doenças.
Mesmo assim, manter horários relativamente consistentes para dormir e acordar é uma medida já relacionada à organização do ritmo circadiano e pode fazer parte de uma rotina saudável. Para a saúde ocular, ela não substitui medidas comprovadas, como controlar doenças crônicas e realizar acompanhamento oftalmológico conforme idade e fatores de risco. Visão embaçada persistente, perda de visão periférica, distorções na visão ou qualquer piora visual devem ser avaliadas por um oftalmologista.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação médica profissional.








