Mudar bastante os horários das refeições entre os dias úteis e o fim de semana pode criar o chamado eating jetlag, ou “jet lag alimentar”. Um estudo com mais de 100 mil adultos encontrou associação entre maior irregularidade nos horários de alimentação e risco cardiovascular mais elevado entre os homens. O achado, porém, não significa que atrasar uma refeição ocasionalmente cause doença cardíaca, nem que exista um horário exato que todos precisem seguir.
O que é o chamado jet lag alimentar?
O eating jetlag descreve a diferença entre o horário em que uma pessoa costuma se alimentar nos dias de trabalho e nos dias livres. No estudo, os pesquisadores não consideraram especificamente almoço e jantar, mas calcularam o ponto médio entre a primeira e a última ingestão calórica do dia e compararam esse horário entre dias úteis e fins de semana.
Assim, uma pessoa que toma café da manhã, almoça e janta bem mais tarde no sábado e no domingo pode apresentar maior eating jetlag. A hipótese é que mudanças frequentes nos horários das refeições possam interferir nos sinais que ajudam a sincronizar o ciclo circadiano, responsável por organizar diversas funções do organismo ao longo de 24 horas.
O que o estudo encontrou sobre o coração?
O estudo Eating jetlag based on meal timing discrepancies and risk of cardiovascular disease using the prospective cohort NutriNet-Santé, publicado em setembro de 2026 na Communications Medicine, acompanhou 104.806 adultos franceses por um período mediano de 8,1 anos. Cerca de 79% dos participantes eram mulheres e a idade média inicial era de 42,7 anos.
Entre os homens, cada aumento na intensidade do jet lag alimentar foi associado a maior risco de doenças cardiovasculares e, principalmente, de doença coronariana. Nas mulheres, a pesquisa não identificou a mesma associação de forma estatisticamente clara. Também não foi encontrada associação significativa com doenças cerebrovasculares, grupo que inclui o AVC.

Comer mais tarde no fim de semana é sempre pior?
Os resultados mostram que a questão pode ser mais complexa do que simplesmente considerar refeições tardias como prejudiciais:
- 71% dos participantes mantinham horários relativamente semelhantes entre dias úteis e dias livres;
- cerca de 24% atrasavam em mais de uma hora o ponto médio da alimentação nos dias livres;
- aproximadamente 5% antecipavam esse horário em mais de uma hora;
- entre os homens, tanto mudanças para horários mais cedo quanto para mais tarde apresentaram alguns sinais de maior risco coronariano;
- a associação com maior intensidade do jet lag alimentar permaneceu mesmo após ajustes para qualidade da dieta, duração do sono e jet lag social.
Isso sugere que a regularidade pode ter importância, e não apenas o fato de comer cedo ou tarde. Ainda assim, por se tratar de um estudo observacional, não é possível afirmar que a mudança nos horários tenha causado os eventos cardiovasculares.
Vale tentar manter os horários das refeições?
Não existe, com base nesse estudo isolado, uma recomendação para comer todos os dias exatamente no mesmo minuto. Para quem deseja diminuir grandes oscilações na rotina, algumas medidas simples podem ajudar:
- evitar deslocar todas as refeições várias horas nos dias livres;
- tentar manter horários aproximados para a primeira e a última refeição;
- considerar também os horários de sono, que participam da organização do relógio biológico;
- priorizar uma alimentação saudável, já que regularidade não compensa uma dieta de baixa qualidade;
- manter atividade física e acompanhamento dos principais fatores de risco cardiovascular.
A regularidade das refeições é apenas uma possível peça do conjunto. Pressão alta, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, sedentarismo e outros fatores têm papel bem estabelecido no desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
Para entender melhor como a alimentação faz parte dos cuidados com o coração, veja também:
O que ainda falta descobrir?
Os pesquisadores destacam que os resultados precisam ser confirmados por outros estudos, especialmente porque a associação apareceu principalmente nos homens e a maioria dos participantes da coorte era formada por mulheres. Além disso, fatores da rotina que acompanham mudanças nos horários de alimentação podem ser difíceis de separar completamente em uma pesquisa observacional.
Por isso, o estudo coloca o jet lag alimentar no radar da saúde cardiovascular, mas ainda não transforma a regularidade das refeições em uma prescrição específica. Pessoas com doença cardiovascular, diabetes ou outros fatores de risco, ou que precisem reorganizar alimentação e horários por motivos de saúde, devem buscar orientação médica e nutricional individualizada.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação ou orientação médica profissional.








