Sentir as pernas pesadas e inchadas ao tirar os sapatos no fim do dia é uma queixa tão comum que costuma ser atribuída, quase automaticamente, à retenção de líquido. No entanto, quando o inchaço se repete quase todos os dias, vem acompanhado de dor, ardência ou vasinhos aparentes, o problema pode ter outra origem: a insuficiência venosa crônica, uma condição subdiagnosticada que afeta principalmente mulheres acima dos 40 anos e que, sem tratamento, tende a progredir ao longo dos anos.
Retenção de líquido e insuficiência venosa crônica são a mesma coisa?
Não. A retenção hídrica é um acúmulo temporário de água nos tecidos, geralmente ligado a excesso de sódio, alterações hormonais do ciclo menstrual, calor ou longos períodos parada. Costuma melhorar ao levantar as pernas, hidratar bem e reduzir o sal.
Já a insuficiência venosa crônica acontece quando as válvulas das veias das pernas não fecham direito, e o sangue fica represado no sentido contrário ao coração. O inchaço tende a ser mais intenso no fim do dia, some parcialmente ao acordar e volta a piorar conforme o corpo passa horas em pé ou sentado.
Por que mulheres acima de 40 anos são mais afetadas?
A combinação de fatores hormonais, gestações anteriores, predisposição genética e sobrepeso torna esse grupo especialmente vulnerável. Estrogênio e progesterona interferem no tônus da parede venosa, e cada gravidez aumenta a pressão sobre as veias pélvicas e dos membros inferiores.
Somam-se a isso rotinas com muitas horas sentada ou em pé, uso frequente de salto alto e sedentarismo, que enfraquecem a bomba muscular da panturrilha, responsável por empurrar o sangue de volta ao coração.

Quais são os sinais de alerta da insuficiência venosa?
Alguns sintomas ajudam a diferenciar um inchaço passageiro de um quadro venoso que merece investigação:
- Peso e cansaço nas pernas que pioram no fim do dia e melhoram ao elevar os membros;
- Surgimento de varizes ou vasinhos avermelhados e arroxeados, especialmente na parte de trás das coxas e panturrilhas;
- Dor, ardência, coceira ou câimbras noturnas frequentes;
- Inchaço assimétrico, ou seja, mais pronunciado em uma perna do que na outra;
- Alterações na pele, como manchas escurecidas, ressecamento e endurecimento na região dos tornozelos;
- Sensação de formigamento ou queimação após longos períodos em pé.
O que diz a ciência sobre a doença venosa crônica?
Para entender melhor a magnitude do problema, vale citar a revisão de referência elaborada pela principal entidade da especialidade no país. Segundo as Diretrizes brasileiras de doença venosa crônica da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, publicadas no Jornal Vascular Brasileiro, a doença venosa crônica está entre as condições mais prevalentes da população adulta, atinge cerca de duas mulheres para cada homem e permanece subdiagnosticada porque muitos sintomas são interpretados como cansaço, envelhecimento natural ou simples retenção de líquido.
O documento reforça que o diagnóstico precoce, aliado à mudança de hábitos e ao uso adequado de meias de compressão, reduz de forma significativa a progressão para estágios mais graves, como úlceras venosas.

Quando é hora de procurar um angiologista?
Alguns sinais indicam que a avaliação especializada não deve ser adiada:
- Inchaço diário nas pernas que não melhora com repouso e elevação dos membros;
- Aparecimento ou aumento rápido de varizes, mesmo sem dor;
- Dor intensa, calor ou vermelhidão localizada em uma das pernas;
- Manchas escuras, feridas que não cicatrizam ou pele endurecida próxima ao tornozelo;
- Histórico familiar de doença venosa somado a sintomas persistentes.
Diante de qualquer um desses sinais, o ideal é agendar uma consulta com angiologista ou cirurgião vascular para exame clínico e, se necessário, ultrassom Doppler venoso. Somente um profissional habilitado pode confirmar o diagnóstico, descartar outras causas de inchaço e indicar o tratamento mais adequado para cada caso.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um médico. Em caso de dúvidas ou sintomas persistentes, procure orientação profissional qualificada.









