Manter o colesterol LDL dentro da meta é uma vitória importante para a saúde do coração, mas nem sempre é suficiente para afastar o risco de infarto e AVC. Uma partícula pouco conhecida, a lipoproteína(a), determinada quase inteiramente pela genética, pode manter o risco cardiovascular elevado mesmo em pessoas com exames aparentemente bons. Entender quando investigar esse marcador ajuda a explicar casos de eventos cardíacos precoces em famílias e a orientar decisões preventivas mais precisas.
O que é a lipoproteína(a) e por que ela importa?
A lipoproteína(a), abreviada como Lp(a), é uma partícula semelhante ao LDL, porém com uma proteína adicional chamada apolipoproteína(a) ligada à sua estrutura. Essa diferença dá a ela um comportamento particular no organismo, favorecendo processos inflamatórios e de calcificação nas artérias.
Ao contrário do LDL, que responde bem a mudanças na alimentação e a medicamentos como estatinas, os níveis de Lp(a) permanecem praticamente estáveis ao longo da vida. Isso significa que uma pessoa pode ter o colesterol LDL normal e ainda assim carregar um risco cardiovascular residual importante.
Por que a genética determina os níveis de Lp(a)?
Cerca de 90% dos níveis plasmáticos de Lp(a) são definidos por herança genética, com pouca influência de dieta, peso corporal ou prática de exercícios. Cada pessoa herda um alelo do gene LPA de cada pai, e essa combinação define quanto de apolipoproteína(a) o fígado vai produzir ao longo da vida.
Por isso, filhos de pais com Lp(a) elevada têm chance considerável de apresentar o mesmo padrão. Estima-se que 20% a 30% da população mundial conviva com valores acima do considerado seguro, muitas vezes sem saber, o que ajuda a explicar casos de infarto em pessoas jovens e sem os fatores de risco tradicionais.

Como um estudo científico confirma a relação com o risco cardiovascular?
As evidências que sustentam o papel da Lp(a) como fator de risco causal e independente vêm de grandes estudos populacionais e revisões conduzidas por sociedades médicas internacionais, que reforçam a importância desse marcador na prática clínica.
Segundo a revisão Lipoprotein(a) and its Significance in Cardiovascular Disease, publicada no periódico JAMA Cardiology e indexada no PubMed, estudos epidemiológicos e genéticos indicam associação potencialmente causal entre níveis elevados de Lp(a), doença cardiovascular aterosclerótica e estenose da válvula aórtica. A revisão destaca que a partícula atua por meio de inflamação vascular, aterogênese, calcificação e trombose, mecanismos distintos dos associados ao LDL isolado.
Em quais situações o médico pode pedir o exame?
A dosagem da Lp(a) não faz parte do check-up de rotina, mas ganha relevância diante de sinais que sugerem risco cardiovascular além do explicado pelos exames tradicionais. Algumas situações costumam motivar o pedido:
- Histórico familiar de infarto ou AVC precoce, especialmente antes dos 55 anos em homens e 65 em mulheres;
- Evento cardiovascular pessoal sem causa clara, quando LDL, pressão e glicemia estão controlados;
- Hipercolesterolemia familiar ou suspeita de causas genéticas de colesterol muito alto;
- Risco cardiovascular limítrofe, em que o resultado pode mudar a intensidade da prevenção;
- Estenose aórtica calcificada diagnosticada em idade relativamente jovem;
- Avaliação de familiares diretos de pessoas com Lp(a) muito elevada.

Como reduzir o risco quando a Lp(a) está alta?
Ainda não existe um medicamento aprovado especificamente para reduzir a Lp(a), mas isso não significa que o risco seja imutável. A estratégia envolve controlar de forma rigorosa todos os demais fatores modificáveis que contribuem para a aterosclerose, ampliando a margem de proteção do coração. As principais medidas incluem:
- Manter o LDL nas metas individualizadas, muitas vezes mais baixas do que o padrão geral;
- Controlar pressão arterial, glicemia e peso com acompanhamento regular;
- Adotar alimentação equilibrada, rica em fibras, azeite, peixes e vegetais, e pobre em ultraprocessados;
- Praticar atividade física regular, conforme orientação médica;
- Abandonar o tabagismo, que potencializa o efeito aterogênico da Lp(a);
- Discutir com o cardiologista o uso de estatinas, ezetimiba ou inibidores de PCSK9, quando indicados;
- Acompanhar novas terapias em desenvolvimento, já em estudos avançados voltados especificamente à Lp(a).
Quem tem histórico familiar de doença cardíaca precoce ou apresenta risco cardiovascular desproporcional aos exames de rotina deve conversar com um cardiologista para avaliar a necessidade de dosar a lipoproteína(a) e definir a melhor estratégia de prevenção individualizada.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um profissional de saúde qualificado.









