Um trabalho científico encontrou metabólitos de pesticidas organofosforados com maior frequência na urina de pacientes com Parkinson do que em pessoas sem a doença. O resultado reforça a possível relação entre exposição prolongada a agrotóxicos e risco neurológico, especialmente entre trabalhadores agrícolas. Entretanto, não demonstra que o contato com essas substâncias seja a causa única do Parkinson, condição que envolve idade, predisposição genética e diferentes fatores ambientais.
O que o estudo encontrou nos pacientes?
Os pesquisadores compararam pessoas com doença de Parkinson e participantes saudáveis com histórico de possível exposição a pesticidas. Entre as amostras urinárias válidas, metabólitos dialquilfosfatos, formados após o organismo processar muitos organofosforados, foram detectados em 91,9% dos pacientes e em 24,2% dos controles.
Segundo o estudo Paraxonase-1 Gene Polymorphism and Parkinson’s Disease in Pesticides Exposed Patients, publicado na Egyptian Society of Clinical Toxicology Journal, o grupo com Parkinson também apresentou menor atividade da enzima PON1, envolvida na quebra de certos organofosforados. O estudo foi observacional e não permite concluir que os pesticidas tenham provocado a doença.
Por que o trabalho rural pode elevar o risco?
Trabalhadores rurais podem entrar em contato com agrotóxicos durante o preparo da mistura, a aplicação, a limpeza dos equipamentos e a entrada em áreas recentemente pulverizadas. A exposição pode ocorrer pela pele, pela inalação de gotículas e, em situações de higiene inadequada, pela ingestão acidental. A roupa contaminada ainda pode levar resíduos para dentro de casa.
Uma meta-análise publicada na revista Neurology encontrou associação entre Parkinson e exposição a pesticidas, atividades agrícolas e residência rural, embora tenha ressaltado a necessidade de estudos melhores para comprovar causa e efeito. A Organização Mundial da Saúde afirma que pesticidas e solventes podem aumentar o risco da doença, enquanto a Academia Brasileira de Neurologia recomenda reduzir a exposição evitável a agrotóxicos.

Quais situações aumentam a exposição ocupacional?
O risco de contato tende a crescer quando práticas de segurança não são seguidas de forma consistente:
- Preparar ou diluir produtos sem luvas e proteção adequada, permitindo contato direto com a pele;
- Pulverizar contra o vento ou permanecer próximo da névoa produzida durante a aplicação;
- Usar equipamentos de proteção danificados, inadequados ao produto ou retirados antes do fim da atividade;
- Entrar na lavoura antes do intervalo de reentrada indicado no rótulo e nas orientações técnicas;
- Lavar roupas contaminadas junto das peças da família ou voltar para casa com botas e vestimentas usadas na aplicação;
- Reutilizar embalagens ou armazenar agrotóxicos de forma imprópria, aumentando o risco para o trabalhador e para outras pessoas.
Quais sinais de Parkinson merecem avaliação?
A exposição a pesticidas não significa que a pessoa desenvolverá Parkinson, mas sintomas progressivos devem ser avaliados por um neurologista:
- Tremor em repouso, principalmente quando começa de um lado do corpo;
- Lentidão dos movimentos, percebida ao caminhar, vestir-se, escrever ou realizar tarefas simples;
- Rigidez muscular e redução do balanço dos braços durante a marcha;
- Passos curtos, dificuldade para iniciar o movimento ou alterações do equilíbrio;
- Redução do olfato, prisão de ventre e distúrbios do sono, que podem anteceder os sinais motores;
- Mudanças persistentes na voz, na expressão facial ou na caligrafia, sobretudo quando aparecem junto de outros sintomas de Parkinson.

O que esse resultado significa na prática?
Os metabólitos urinários indicam que houve contato com determinados pesticidas, mas podem refletir uma exposição relativamente recente e não identificam, sozinhos, qual produto, dose ou duração esteve envolvida. Esse tipo de exame também não serve para diagnosticar Parkinson nem deve ser solicitado sem avaliação clínica e ocupacional. O diagnóstico da doença é feito principalmente pelo neurologista, com base nos sintomas e no exame físico.
Para trabalhadores agrícolas, a principal medida é reduzir o contato seguindo o rótulo, o receituário agronômico, o intervalo de reentrada e o uso correto dos equipamentos de proteção. Pessoas com histórico prolongado de exposição devem informar essa atividade ao médico, especialmente diante de sintomas neurológicos. O risco é multifatorial, portanto hábitos, envelhecimento, genética e outras exposições também precisam ser considerados.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação médica. Trabalhadores expostos a agrotóxicos ou pessoas com tremor, lentidão dos movimentos, rigidez ou alterações do equilíbrio devem buscar orientação de um neurologista ou de um serviço de saúde do trabalhador.









