Soltar gases é uma das funções mais naturais do corpo humano, mas quase ninguém sabe exatamente qual é a frequência considerada saudável. Durante décadas, os manuais médicos afirmaram que uma pessoa comum eliminava gases cerca de 14 vezes ao dia. Agora, pesquisadores americanos usaram um dispositivo inédito para medir esse número com precisão e chegaram a uma resposta que surpreendeu até os próprios cientistas.
Por que produzimos gases intestinais?
Os gases se formam por dois motivos principais. O primeiro é o ar engolido enquanto comemos, bebemos ou falamos, especialmente quando mastigamos rápido ou consumimos bebidas gaseificadas. O segundo, e mais relevante, é a fermentação de alimentos pelas bactérias que vivem no intestino grosso.
Essa fermentação produz hidrogênio, metano, gás carbônico e pequenas quantidades de compostos sulfurados, responsáveis pelo odor característico. Trata-se de um processo fisiológico normal e, em geral, sinal de um intestino em bom funcionamento.
Qual é o número considerado normal pela ciência?
Por muito tempo, a literatura médica trabalhou com a estimativa de 14 episódios diários, com margem para mais ou para menos seis. Esse dado, porém, vinha de estudos pequenos ou baseados no relato dos próprios voluntários, o que abria espaço para esquecimentos e episódios não contabilizados durante o sono.
Novas medições objetivas indicam que o número real é bem maior. A faixa considerada dentro do esperado é ampla e depende da alimentação, do ritmo intestinal e da composição da microbiota de cada pessoa.

O que um estudo com sensores contínuos revelou sobre a flatulência?
Pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, desenvolveram um sensor eletroquímico que se prende à roupa íntima e mede continuamente o hidrogênio liberado ao longo do dia e da noite. Foi a primeira vez que a flatulência humana foi monitorada de forma objetiva por vários dias seguidos.
Segundo o estudo Smart underwear a novel wearable for long-term monitoring of gut microbial gas production via flatus, publicado na revista científica Biosensors and Bioelectronics X, os adultos saudáveis avaliados soltaram gases em média 32 vezes por dia, com variação individual entre 4 e 59 episódios diários, o dobro do que a literatura médica estimava anteriormente.
Quais fatores fazem alguém soltar mais gases?
A quantidade de gases varia bastante de uma pessoa para outra e sofre influência direta da rotina alimentar e do funcionamento do intestino. Entre os principais fatores que aumentam a produção diária estão:
- Dieta rica em fibras, como feijão, lentilha, grão-de-bico, brócolis e couve-flor, que servem de alimento para as bactérias intestinais.
- Consumo de bebidas gaseificadas, como refrigerantes e águas com gás, que introduzem ar no trato digestivo.
- Mastigação rápida e falar enquanto come, hábitos que aumentam a quantidade de ar engolido.
- Intolerâncias alimentares, especialmente à lactose e ao glúten, que dificultam a digestão de certos nutrientes.
- Prisão de ventre, já que fezes retidas favorecem maior fermentação bacteriana no cólon.
Vale lembrar que alimentos fermentáveis são, em sua maioria, muito nutritivos e devem continuar na rotina, mesmo que causem flatulência excessiva em algumas fases.

Quando o excesso de gases pode indicar um problema?
Embora a produção de gases seja natural, alguns sinais associados merecem atenção porque podem indicar desequilíbrio na microbiota, intolerância alimentar ou outra condição digestiva. Fique atento aos seguintes alertas:
- Dor abdominal intensa ou cólicas persistentes acompanhando os gases.
- Distensão abdominal frequente, com barriga muito inchada mesmo em jejum.
- Diarreia ou constipação recorrentes, alternando episódios sem causa aparente.
- Odor extremamente forte e súbito, que passou a ocorrer sem mudança na dieta.
- Perda de peso involuntária, presença de sangue nas fezes ou febre associada.
- Náuseas e refluxo ligados ao aumento súbito da produção de gases.
Nesses casos, o ideal é procurar um gastroenterologista para investigar possíveis causas, como supercrescimento bacteriano, intolerâncias ou síndrome do intestino irritável. Muitas vezes, ajustes na alimentação e atenção aos sintomas digestivos frequentes já trazem alívio importante.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um profissional de saúde qualificado. Em caso de dúvidas ou sintomas persistentes, procure orientação médica.









