El Niño costuma ser lembrado por ondas de calor, secas ou chuvas intensas, mas seus efeitos podem chegar muito além da previsão do tempo. Ao alterar temperatura e regime de chuvas, o fenômeno pode afetar a disponibilidade de água, a produção de alimentos, a qualidade do ar e as condições para a circulação de algumas doenças. O impacto não acontece da mesma forma em todos os lugares e depende da intensidade do evento, da época do ano e da vulnerabilidade de cada região.
Como o El Niño pode afetar a saúde?
El Niño faz parte de um fenômeno climático conhecido como El Niño Oscilação Sul, ou ENOS, relacionado a alterações na temperatura das águas do Pacífico tropical e na circulação atmosférica. Essas mudanças podem modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo.
Em uma análise global de saúde pública sobre o El Niño publicada pela Organização Mundial da Saúde em 2026, a OMS destaca riscos que passam por segurança alimentar, água, doenças infecciosas e capacidade dos sistemas de saúde de responder a eventos climáticos extremos.
Por que água e alimentos entram nessa discussão?
Secas prolongadas podem reduzir reservatórios e dificultar o acesso à água segura, enquanto enchentes podem contaminar fontes utilizadas para consumo. Quando sistemas de abastecimento e saneamento são afetados, aumenta a preocupação com doenças transmitidas por água ou alimentos contaminados.
A agricultura também depende fortemente de temperatura e disponibilidade de água. Perdas de colheitas, redução da produtividade ou prejuízos à criação de animais podem diminuir a oferta de determinados alimentos e aumentar preços. Em populações mais vulneráveis, períodos prolongados de insegurança alimentar podem elevar o risco de desnutrição, especialmente entre crianças.

Qual é a relação entre El Niño, dengue e outras doenças?
Mosquitos são sensíveis a condições como temperatura, umidade e disponibilidade de água para reprodução. Por isso, mudanças provocadas pelo El Niño podem modificar a transmissão de doenças transmitidas por vetores, incluindo dengue e malária. Isso não significa que um episódio de El Niño automaticamente provoque uma epidemia.
A própria OMS explica que a relação entre ENOS e os efeitos sobre a saúde não é linear nem igual em todas as regiões. Condições locais, circulação prévia do vírus, presença do vetor, saneamento e medidas de controle também influenciam o número de casos. No Brasil, conhecer os sintomas, formas de transmissão e prevenção da dengue continua sendo importante independentemente da fase climática.
E por que a cólera pode aparecer entre os riscos?
A cólera é transmitida principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados pela bactéria Vibrio cholerae. Portanto, o elo com eventos climáticos ocorre sobretudo quando enchentes, secas, deslocamentos populacionais ou problemas de saneamento comprometem o acesso à água potável e à higiene.
Isso significa que El Niño não causa cólera diretamente. O fenômeno pode criar ou agravar condições ambientais que favorecem surtos em locais onde a doença já representa risco. A OMS reforça que água segura, saneamento adequado e higiene são fundamentais para prevenir a transmissão.

Quem tende a sofrer mais com esses efeitos?
Os impactos não são distribuídos igualmente. Comunidades com abastecimento de água precário, saneamento insuficiente, dificuldade de acesso aos serviços de saúde ou grande dependência da agricultura tendem a ter menos recursos para lidar com secas, enchentes e perdas na produção de alimentos.
Entre os problemas que podem ganhar importância durante eventos climáticos intensos estão:
- desidratação e doenças relacionadas ao calor;
- dificuldade de acesso à água potável;
- contaminação de água e alimentos após enchentes;
- aumento ou deslocamento do risco de doenças transmitidas por mosquitos;
- insegurança alimentar e piora do estado nutricional;
- interrupção de serviços de saúde devido a eventos extremos.
Por isso, acompanhar alertas meteorológicos e orientações das autoridades de saúde pode ser tão importante quanto observar a temperatura. Os efeitos do El Niño sobre a saúde dependem muito do local e das condições existentes antes do evento, e não devem ser interpretados como consequências inevitáveis.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui orientações das autoridades de saúde nem avaliação médica individual. Em períodos de eventos climáticos extremos, recomendações locais sobre água, alimentos, calor e prevenção de doenças devem ser priorizadas.









