A microbiota intestinal de cada pessoa pode fermentar as fibras de maneira diferente, e um pequeno estudo exploratório testou se seria possível usar essa característica para escolher uma fibra mais adequada para cada indivíduo. A estratégia produziu mais compostos da fermentação com a fibra selecionada como “melhor” em sete dos oito participantes, mas o trabalho não avaliou melhora de sintomas ou prevenção de doenças. Por enquanto, o resultado indica uma possibilidade para a nutrição personalizada, não um método pronto para orientar suplementos na rotina.
Como os pesquisadores escolheram uma fibra para cada pessoa?
No Function-based personalization of dietary fiber selection enhances gut microbial fermentation, publicado em setembro de 2026 na Frontiers in Nutrition, os pesquisadores coletaram amostras de fezes e testaram em laboratório como a microbiota de cada participante fermentava até 17 fibras comerciais diferentes.
Entre elas estavam inulina, amido resistente, dextrina resistente, alfa-ciclodextrina, isomaltodextrina e goma guar parcialmente hidrolisada. Para cada pessoa, foi identificada a fibra que provocava maior atividade fermentativa e outra que apresentava a menor resposta. Depois, ambas foram testadas no próprio participante em períodos diferentes.
A fibra personalizada realmente produziu uma resposta diferente?
O estudo incluiu apenas oito adultos saudáveis, com idades entre 34 e 62 anos. Cada participante consumiu 6 gramas por dia de cada fibra durante seis semanas, com um intervalo de quatro semanas entre as duas fases, funcionando como seu próprio controle.
- em sete das oito pessoas, a fibra escolhida como mais fermentável produziu maior aumento dos ácidos graxos voláteis nas fezes do que a fibra de menor fermentação;
- a diferença média entre as duas fases foi de 32,4 micromoles por grama de fezes;
- na análise individual previamente planejada, apenas dois participantes tiveram aumento significativo de ácidos graxos voláteis em relação ao período inicial;
- a fibra de menor fermentação não produziu aumento significativo em nenhum participante nessa análise;
- a inulina foi a fibra escolhida como mais fermentável para seis das oito pessoas.
Os resultados sugerem que a capacidade de fermentação pode variar de uma pessoa para outra, mas também mostram que a resposta não foi uniforme.

O que a microbiota faz com as fibras?
Algumas fibras chegam ao intestino grosso sem serem digeridas e podem servir de substrato para os microrganismos intestinais. Durante essa fermentação, são produzidos compostos como acetato, propionato e butirato, pertencentes ao grupo dos ácidos graxos de cadeia curta.
Esses compostos participam de diferentes funções no intestino e no metabolismo. É esse mecanismo que ajuda a explicar a ação de alguns prebióticos, mas produzir mais metabólitos em uma análise de fezes não significa automaticamente melhorar prisão de ventre, inchaço, glicemia ou qualquer outra condição clínica.
Por que o estudo ainda não permite escolher a melhor fibra por teste de microbiota?
O trabalho foi desenhado como uma prova de conceito, portanto existem limitações importantes antes de aplicar seus resultados à população:
- apenas oito pessoas participaram da intervenção;
- todos eram adultos saudáveis, sem doenças que exigissem tratamento;
- a distribuição da ordem das fibras foi feita conforme a entrada no estudo, e não por randomização formal;
- o principal resultado foi a concentração de produtos da fermentação nas fezes;
- não foram avaliados benefícios clínicos como melhora da constipação, dor, gases ou qualidade de vida;
- o teste não conseguiu prever quanto cada pessoa responderia à fibra selecionada;
- a composição geral da microbiota não mudou significativamente durante as intervenções.
Por isso, o estudo não demonstra que um exame comercial de microbiota seja capaz de indicar hoje a “fibra ideal” para cada pessoa. Estudos maiores, com diferentes populações e desfechos clínicos, ainda são necessários.
Para entender melhor como fibras e microbiota se relacionam com o funcionamento intestinal, veja também este conteúdo do Tua Saúde.
É preciso personalizar o consumo de fibras?
Na prática, as recomendações continuam priorizando variedade alimentar e aumento gradual do consumo de fibras. Frutas, verduras, leguminosas, cereais integrais, sementes e outros alimentos fornecem diferentes tipos de fibras, que exercem funções complementares. A tolerância individual também importa, já que aumentar rapidamente fibras fermentáveis pode provocar gases e distensão em algumas pessoas.
Suplementos específicos de fibras não precisam ser escolhidos com base em testes de microbiota para a maioria das pessoas. Quem apresenta prisão de ventre persistente, dor abdominal, diarreia recorrente ou piora importante com alimentos ricos em fibras deve procurar médico ou nutricionista para investigar a causa e ajustar a alimentação de forma individualizada.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por um profissional de saúde.









