Passar mais tempo em sono REM foi associado a menor risco de desenvolver dezenas de doenças em um estudo com mais de 95 mil adultos, mas o resultado não significa que aumentar essa fase do sono seja uma forma comprovada de prevenir problemas de saúde. A pesquisa chama atenção para um aspecto que vai além de simplesmente contar quantas horas uma pessoa dorme: a organização das diferentes fases do sono também pode estar relacionada à saúde ao longo dos anos.
O que o estudo encontrou sobre o sono REM?
O estudo publicado em 2026 na PLOS Medicine analisou 95.559 participantes do UK Biobank, com idade média de 56 anos, e acompanhou a ocorrência de doenças por uma mediana de 8,9 anos. Os pesquisadores avaliaram duração total, regularidade, despertares e diferentes estágios do sono.
Uma quantidade maior de sono REM foi associada a menor risco de 83 condições após correção estatística rigorosa, incluindo insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, doença isquêmica do coração e algumas doenças neurológicas. O sono profundo também apresentou associações favoráveis, embora com um número menor de condições.
Por que as fases do sono também importam?
O sono não permanece igual durante toda a noite. O organismo passa repetidamente por estágios não REM e pelo sono REM, fase caracterizada por movimentos rápidos dos olhos e intensa atividade cerebral. Esses ciclos participam de diferentes processos relacionados ao funcionamento do cérebro e do organismo.
No estudo, não foi apenas a duração total que esteve relacionada aos desfechos de saúde. Maior irregularidade do sono e mais tempo acordado depois de adormecer também apareceram associados a algumas condições, reforçando que duração, continuidade e arquitetura do sono representam aspectos diferentes de uma noite de descanso.

Quais resultados precisam ser interpretados com cautela?
Apesar do tamanho da amostra, os resultados não permitem afirmar que aumentar o sono REM evitará doenças. Alguns detalhes são essenciais para interpretar a pesquisa:
- o estudo foi observacional e identifica associações, não relações de causa e efeito;
- as fases do sono foram estimadas por um algoritmo a partir dos movimentos registrados por um acelerômetro de pulso;
- não foi realizada polissonografia em todos os participantes, exame que mede diretamente sinais como atividade cerebral e movimentos dos olhos;
- 96,9% dos participantes analisados eram brancos, o que limita a generalização para outras populações;
- doenças ou alterações de saúde ainda não diagnosticadas podem ter influenciado o padrão de sono;
- mesmo após ajustes estatísticos, fatores não medidos podem explicar parte das associações observadas.
Os pesquisadores fizeram análises adicionais para reduzir algumas dessas possibilidades, e muitas associações permaneceram significativas, mas isso ainda não transforma o achado em prova de prevenção.

Lembrar dos sonhos significa ter passado mais tempo em sono REM?
Não. Embora sonhos vívidos sejam frequentes durante o REM, sonhar e lembrar do sonho não são equivalentes a medir essa fase. Sonhos também podem ocorrer em outros estágios, e a capacidade de recordar o conteúdo ao despertar varia conforme fatores como momento e forma do despertar, memória e características individuais.
Por isso, acordar lembrando de vários sonhos não permite concluir que a pessoa teve mais REM, assim como não lembrar de nenhum não significa que essa fase esteve ausente. Em pesquisas, a arquitetura do sono é avaliada com métodos objetivos, e exames como a polissonografia podem ser utilizados quando existe indicação clínica.
O que ajuda a preservar uma boa organização do sono?
Não existe uma técnica caseira comprovada para aumentar seletivamente o REM com o objetivo de prevenir doenças. O mais útil é favorecer um sono suficiente, regular e com poucas interrupções.
- manter horários relativamente regulares para dormir e acordar;
- reservar tempo suficiente para uma noite completa de sono;
- reduzir cafeína e outros estimulantes perto do horário de dormir;
- evitar álcool como estratégia para induzir o sono;
- manter o quarto escuro, silencioso e confortável;
- procurar avaliação quando ronco intenso, pausas respiratórias, insônia ou despertares frequentes persistirem.
Medidas de como dormir melhor podem favorecer a regularidade do descanso, mas alterações persistentes do sono merecem investigação. Sonolência excessiva durante o dia, dificuldade frequente para dormir, despertares repetidos ou suspeita de apneia devem ser avaliados por médico ou especialista em sono.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por um profissional de saúde.









