Quem sofre com episódios repetidos de tontura, sensação de que o ambiente gira e dor de cabeça costuma receber, quase automaticamente, o diagnóstico popular de labirintite. Só que, em muitos casos, o quadro real é outro: a enxaqueca vestibular, uma condição neurológica cada vez mais reconhecida como causa frequente de tontura recorrente. Entender essa diferença é fundamental, porque o tratamento adequado depende de identificar a origem correta dos sintomas e evitar que a pessoa fique anos consumindo remédios que não resolvem o problema.
O que é a enxaqueca vestibular?
A enxaqueca vestibular é um subtipo de enxaqueca em que a tontura e a vertigem são os sintomas principais, e não apenas a dor de cabeça. Ela afeta cerca de 1% da população geral e é uma das causas mais comuns de vertigem recorrente em adultos, especialmente em mulheres entre 30 e 50 anos.
As crises podem durar de 5 minutos a 72 horas, com sensação de rotação, desequilíbrio ou instabilidade. Nem sempre a dor de cabeça acompanha a tontura, o que dificulta o reconhecimento do quadro por leigos e até por profissionais menos familiarizados com a condição.
Por que existe tanta confusão com a labirintite?
O termo “labirintite” é usado no Brasil de forma genérica para qualquer sensação de tontura ou vertigem, o que gera equívocos importantes. Na definição médica, ela é uma inflamação específica do labirinto e costuma ter causa infecciosa, com crise única e intensa.
Já a enxaqueca vestibular tem origem neurológica, é episódica e recorrente. Diferente da inflamação labiríntica, seu mecanismo envolve o sistema trigeminovascular do cérebro, o mesmo relacionado às crises clássicas de enxaqueca com dor de cabeça.

Quais sintomas ajudam a diferenciar as duas condições?
Observar o padrão dos sintomas é decisivo para orientar o diagnóstico. A enxaqueca vestibular tem características que a distinguem das causas típicas de labirintite e de outras alterações do sistema de equilíbrio.
Confira os principais sinais que apontam para enxaqueca vestibular:
- Crises recorrentes de tontura ou vertigem com duração de minutos a algumas horas;
- Sensibilidade à luz, som ou cheiros fortes durante os episódios;
- Histórico pessoal ou familiar de enxaqueca, mesmo que sem dor no momento da crise;
- Alterações visuais, como pontos luminosos ou visão embaçada antes ou durante o episódio;
- Náuseas e piora com movimentos da cabeça ou ambientes visualmente carregados;
- Ausência de perda auditiva persistente, sintoma mais típico da doença de Ménière.
O que a ciência mostra sobre os critérios diagnósticos?
A neurologia e a otologia já contam com critérios internacionais bem definidos para essa condição, o que ajuda a evitar diagnósticos genéricos. Segundo o documento de consenso Vestibular migraine Diagnostic criteria, publicado no Journal of Vestibular Research pela Bárány Society em conjunto com a International Headache Society, o diagnóstico exige pelo menos 5 episódios de sintomas vestibulares associados a características típicas de enxaqueca.
A revisão por pares reforça que a duração dos episódios deve ficar entre 5 minutos e 72 horas e que outras causas vestibulares precisam ser excluídas. Esse cuidado é fundamental porque a vertigem pode ser sintoma de várias condições diferentes, exigindo avaliação especializada para o diagnóstico correto.

Quando procurar avaliação especializada?
Diante de episódios recorrentes de tontura, o ideal é buscar consulta com neurologista e otorrinolaringologista, que podem trabalhar em conjunto para investigar a causa. Exames como o exame otoneurológico ajudam a diferenciar as origens periféricas das centrais e a identificar a real origem dos sintomas.
Alguns sinais indicam necessidade de avaliação sem demora:
- Tontura acompanhada de fraqueza em um lado do corpo ou dificuldade para falar;
- Perda súbita de audição junto às crises de vertigem;
- Dor de cabeça intensa e diferente do padrão habitual;
- Alterações visuais persistentes, como visão dupla ou perda de campo visual;
- Episódios cada vez mais frequentes ou que limitam as atividades diárias;
- Quedas ou desmaios associados à sensação de tontura.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizado por um profissional de saúde qualificado. Consulte sempre um médico diante de sintomas recorrentes de tontura ou vertigem.









