Uma dor intensa, cortante ou semelhante a um rasgo durante a evacuação pode ser causada por fissura anal e não necessariamente por hemorroida. A fissura é uma pequena ruptura na pele do canal anal e costuma provocar dor bem marcada ao passar as fezes, que pode continuar por minutos ou horas depois. Sangue vermelho vivo também pode aparecer, o que ajuda a explicar por que os dois problemas são frequentemente confundidos.
Por que a fissura anal provoca uma dor tão característica?
A fissura anal é uma pequena ferida linear que surge no canal anal. Quando as fezes passam pela região lesionada, ocorre estiramento do tecido e contração do esfíncter anal, o músculo responsável pelo fechamento do ânus, o que pode produzir uma dor aguda e intensa.
A diretriz The American Society of Colon and Rectal Surgeons Clinical Practice Guidelines for the Management of Anal Fissures, publicada em 2023, descreve justamente esse padrão: dor provocada pela evacuação, muitas vezes em sensação de corte ou rasgo, que pode persistir por várias horas depois.
Como diferenciar fissura anal de hemorroida pelo padrão dos sintomas?
A diferença não pode ser confirmada apenas pelos sintomas, mas o padrão da dor oferece pistas importantes. Na fissura, a dor costuma ser o sintoma predominante e aparece especialmente durante e logo após evacuar. Já as hemorroidas podem causar sangramento, coceira, sensação de volume ou desconforto, e algumas hemorroidas internas podem sangrar sem provocar dor intensa.
Hemorroidas externas inflamadas ou com trombose também podem causar dor forte, portanto não é correto considerar toda dor anal como fissura. Além disso, tanto fissuras quanto hemorroidas podem produzir sangue vermelho vivo no papel higiênico ou sobre as fezes, tornando a avaliação médica importante quando os episódios se repetem.

Quais sinais combinam mais com uma fissura anal?
Algumas características tornam a fissura uma hipótese mais provável:
- Dor aguda, cortante ou em sensação de rasgo no momento em que as fezes passam;
- Ardência ou dor que continua depois da evacuação;
- Pequena quantidade de sangue vermelho vivo no papel higiênico ou na superfície das fezes;
- Início dos sintomas após evacuar fezes muito secas, volumosas ou endurecidas;
- Receio de evacuar novamente por causa da intensidade da dor;
- Repetição do mesmo padrão de dor sempre que há esforço para evacuar.
Por que fezes endurecidas favorecem o problema?
Fezes grandes e ressecadas podem traumatizar o revestimento do canal anal durante sua passagem. A prisão de ventre, portanto, é um fator frequente, principalmente quando existe necessidade de fazer muita força para evacuar. Episódios intensos de diarreia também podem irritar a região e participar do aparecimento de fissuras.
Depois que a lesão surge, pode se formar um ciclo: evacuar provoca dor, a dor aumenta a contração do esfíncter e algumas pessoas passam a evitar ou adiar a ida ao banheiro. Isso pode deixar as fezes ainda mais endurecidas e dificultar a cicatrização. Por essa razão, medidas para manter as fezes macias fazem parte do tratamento conservador em muitos casos.

Quando a dor ou o sangramento precisam ser investigados?
Nem todo sangramento anal deve ser atribuído automaticamente a fissura ou hemorroida. Alguns sinais indicam necessidade de avaliação médica:
- Sangramento recorrente, em quantidade importante ou que aumenta com o tempo;
- Dor persistente apesar de melhora da prisão de ventre e das fezes endurecidas;
- Fissura que parece não cicatrizar ou sintomas que se prolongam por semanas;
- Perda de peso sem explicação, mudança persistente do hábito intestinal ou anemia;
- Febre, secreção, inchaço importante ou dor contínua mesmo sem evacuar;
- Fezes muito escuras ou sangue misturado às fezes, em vez de apenas sangue vermelho vivo superficial;
- Lesões recorrentes ou localizadas fora do padrão habitual, situação que pode exigir investigação de doenças inflamatórias, infecciosas ou outras condições.
O diagnóstico costuma ser feito pelo proctologista a partir da história dos sintomas e do exame da região. Fissuras recentes podem melhorar com medidas que reduzam o trauma local, como correção da constipação e manutenção de fezes mais macias. Nos casos persistentes ou crônicos, podem ser necessários medicamentos que reduzam a tensão do esfíncter, aplicação de toxina botulínica ou cirurgia, de acordo com a avaliação individual.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação médica com proctologista, gastroenterologista ou outro profissional adequado.









