A ideia de que apenas quem tem colesterol alto corre risco de sofrer um infarto é um dos equívocos mais comuns em saúde cardiovascular. O evento agudo não depende apenas de um número no exame de sangue: ele resulta da ruptura de uma placa instável nas artérias coronárias e da formação de um coágulo que bloqueia o fluxo de sangue para o coração, um processo que envolve inflamação, pressão arterial, tabagismo, diabetes e outros fatores muitas vezes ignorados.
Como acontece o infarto na prática?
O infarto agudo do miocárdio surge quando uma placa de gordura acumulada na parede da artéria coronária se rompe ou sofre erosão. Esse rompimento expõe conteúdo inflamatório e ativa a coagulação, formando um trombo que bloqueia a passagem do sangue e leva à morte das células cardíacas.
O detalhe importante é que a placa que se rompe nem sempre é a maior ou a mais visível em um exame. Placas menores e ricas em conteúdo inflamatório, chamadas de placas vulneráveis, podem provocar eventos graves mesmo em pessoas com colesterol dentro da faixa considerada normal em exames de rotina.
Por que o colesterol normal não elimina o risco de infarto?
O colesterol total e o LDL são marcadores importantes, mas capturam apenas parte do processo aterosclerótico. Uma pessoa pode apresentar valores dentro da faixa de referência e ainda assim ter placas nas artérias, especialmente se conviver por anos com outros fatores de risco.
Além disso, a inflamação crônica de baixo grau, medida por exames como a proteína C reativa ultrassensível, tem papel central na instabilidade das placas. Isso ajuda a explicar por que casos de infarto ocorrem em pessoas sem dislipidemia clássica, mas com outros marcadores alterados.

Quais outros fatores de risco realmente pesam?
O risco cardiovascular resulta da combinação de vários elementos, e não de um único indicador. Alguns fatores aumentam de forma significativa a chance de eventos agudos, mesmo com colesterol dentro do considerado normal. Fique atento aos principais:
- Pressão alta, especialmente quando não tratada ou mal controlada
- Diabetes tipo 2 e pré-diabetes, que aceleram a aterosclerose e alteram a coagulação
- Tabagismo, um dos fatores mais potentes para instabilidade da placa
- Obesidade abdominal e síndrome metabólica
- Sedentarismo e alimentação rica em ultraprocessados
- Histórico familiar de infarto ou AVC antes dos 55 anos em homens e 65 em mulheres
- Estresse crônico, sono ruim e apneia do sono não tratada
- Inflamação crônica associada a doenças autoimunes ou infecções persistentes
A soma desses fatores pode elevar o risco de forma expressiva, mesmo quando o colesterol total parece adequado. Por isso, a avaliação cardiovascular deve considerar o conjunto e não apenas um exame isolado.
Como uma diretriz da SBC orienta a estratificação de risco?
A avaliação de risco cardiovascular vai muito além de checar o colesterol. Ela combina idade, sexo, pressão arterial, presença de diabetes, tabagismo e histórico familiar em cálculos que estimam a probabilidade de um evento em 10 anos ou ao longo da vida, permitindo decisões mais precisas.
Segundo a I Diretriz Brasileira de Prevenção Cardiovascular, publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, a estratificação com o Escore de Risco Global e o Risco pelo Tempo de Vida deve ser usada para identificar indivíduos assintomáticos com maior probabilidade de eventos futuros. O documento reforça que a abordagem preventiva não pode se basear em um marcador isolado e precisa considerar o conjunto dos fatores de risco.
Controlar o LDL continua sendo importante?
Reconhecer que o infarto envolve vários fatores não significa que o LDL possa ser negligenciado. Ele continua sendo um dos principais alvos do tratamento e da prevenção, com evidência sólida de que sua redução diminui eventos cardiovasculares em pessoas de médio e alto risco.
O ponto essencial é entender que valores normais em uma faixa geral podem não ser suficientes para quem já tem placas nas coronárias ou vários fatores associados. Nesses casos, as metas de LDL se tornam mais rigorosas e podem exigir tratamento medicamentoso, ainda que o exame pareça satisfatório à primeira vista. Saiba mais sobre a isquemia cardíaca e a relação entre placas e obstrução das artérias.

Quando procurar um cardiologista?
A avaliação especializada deve fazer parte da rotina de todo adulto com fatores de risco, mesmo sem sintomas. O cardiologista orienta a investigação individualizada e define o melhor plano de prevenção. Procure avaliação nas seguintes situações:
- Homens a partir dos 45 anos e mulheres a partir dos 50, mesmo sem sintomas
- Presença de hipertensão, diabetes, obesidade ou tabagismo
- Histórico familiar de infarto, AVC ou morte súbita antes dos 55 ou 65 anos
- Colesterol dentro do normal, mas com múltiplos fatores de risco associados
- Dor no peito, falta de ar aos esforços ou palpitações frequentes
- Pré-diabetes, síndrome metabólica ou apneia do sono
- Doenças autoimunes ou inflamatórias crônicas
O especialista pode solicitar exames complementares como eletrocardiograma, ecocardiograma, teste ergométrico, escore de cálcio coronariano, angiotomografia e marcadores inflamatórios, ajustando a investigação ao perfil de cada pessoa.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um médico. Diante de sintomas persistentes ou fatores de risco, procure um profissional de saúde de confiança.









