O sono segmentado é o hábito de dormir em dois blocos, com um período acordado entre eles. A ideia voltou a circular em redes sociais e em conversas sobre insônia. Muita gente que acorda às 3 da manhã sente alívio ao saber disso: talvez o corpo esteja só repetindo um padrão antigo. O tema interessa à medicina do sono porque muda a forma como cada pessoa entende o próprio descanso e a ansiedade de madrugada.
Como funcionava o sono segmentado nos séculos passados?
A teoria ganhou força com o historiador Roger Ekirch. Ele reuniu diários, processos judiciais, manuais médicos e textos literários da Europa pré-industrial. Nesses registros aparecem expressões como primeiro sono e segundo sono. As pessoas deitavam pouco depois do anoitecer, dormiam algumas horas e acordavam perto da meia-noite.
Esse intervalo podia durar uma hora ou mais. Nele as pessoas rezavam, cuidavam do fogo, conversavam com o parceiro ou pensavam nos sonhos. Depois vinha o segundo bloco, até o amanhecer. Sem iluminação artificial barata, o inverno europeu tinha 12 a 14 horas de escuridão, e esse tempo todo abria espaço para um ritmo dividido.
O que a pesquisa diz sobre o primeiro sono?
Uma pesquisa publicada em abril de 2023 reexaminou a história desse hábito. O autor, N. Boyce, revisou as fontes científicas, antropológicas e literárias usadas para defender a teoria na Inglaterra do início da era moderna. Ele não nega que o primeiro sono existisse. A dúvida dele é mais específica: as evidências não bastam para afirmar que o sono em dois blocos era a norma naquela sociedade.

A diferença importa. Se o padrão era comum mas não universal, perde força a ideia de que o despertar noturno é o jeito natural de dormir. Para quem acorda de madrugada, a explicação histórica ajuda, mas não dispensa olhar para a rotina, o corpo e possíveis distúrbios do sono.
Por que o assunto voltou a ser comentado?
O debate acadêmico continua. Em 2024, Ekirch respondeu à crítica e reafirmou que os registros apontam para um padrão bifásico no Ocidente pré-moderno. Essa resposta também indicou que o hábito desapareceu mais tarde do que o próprio historiador tinha proposto no início.
Fora da academia, alguns fatores explicam o novo interesse pelo assunto:
- vídeos e posts que vendem rotinas ditas ancestrais como solução para o cansaço;
- relógios e anéis inteligentes que registram cada despertar e deixam o usuário preocupado;
- queixas frequentes de insônia em consultórios e pronto atendimentos;
- a procura por uma explicação que reduza a angústia de quem desperta às 3 da manhã.
Acordar de madrugada sempre indica um problema?
Nem sempre. Todo adulto tem microdespertares durante a noite, na passagem entre sono leve, sono profundo e sono REM. A maioria nem se lembra deles. O despertar noturno merece atenção quando a pessoa fica muito tempo acordada, sente cansaço no dia seguinte ou isso se repete várias vezes por semana. Alguns sinais pedem avaliação:
- demorar mais de 30 minutos para voltar a dormir quase todas as noites;
- ronco alto ou pausas na respiração percebidas por quem divide a cama;
- sonolência diurna que atrapalha o trabalho ou a direção;
- vontade frequente de urinar de madrugada, que pode ter relação com diabetes, próstata ou excesso de líquidos à noite;
- coração acelerado ou pensamentos repetitivos logo ao acordar.
Esses quadros podem indicar insônia de manutenção, apneia obstrutiva do sono, ansiedade ou alterações hormonais. O médico pode investigar a causa e, se preciso, pedir uma polissonografia, exame que monitora respiração, oxigenação e fases do sono.

O que fazer quando o descanso se divide em dois
Se o intervalo acordado não traz prejuízo no dia seguinte, o melhor é diminuir a tensão em torno dele. Algumas atitudes ajudam a voltar para o segundo bloco:
- não olhar o relógio nem o celular, porque a luz azul e a conta das horas aumentam o alerta;
- usar luz baixa e amarelada se precisar levantar;
- fazer algo calmo, como ler um livro em papel;
- sair da cama se passar de 20 minutos acordado e voltar só quando o sono vier;
- evitar cafeína no fim da tarde e álcool perto da hora de deitar.
Essas medidas fazem parte da terapia cognitivo-comportamental para insônia, considerada o tratamento de primeira escolha. Quem quiser ir além pode conhecer as técnicas usadas na terapia do sono, como o controle de estímulos e a restrição do tempo na cama.
O que essa história ensina sobre o descanso?
A discussão entre historiadores mostra que o sono segmentado já fez parte da vida de muitas pessoas, ligado à luz do fogo e às longas madrugadas de inverno. Hoje, um bom descanso se mede menos pelo formato e mais pela disposição ao acordar, pela regularidade dos horários e pela ausência de ronco, falta de ar ou sonolência excessiva.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o acompanhamento de um profissional de saúde. Se os despertares atrapalham sua rotina ou geram dúvidas, procure orientação médica.









