Crianças nascidas em agosto receberam mais diagnósticos de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) do que aquelas nascidas em setembro, segundo uma pesquisa publicada no New England Journal of Medicine. Mas o resultado não significa que nascer em agosto aumente o risco de desenvolver o transtorno. A diferença foi observada em escolas norte-americanas nas quais os alunos de agosto eram os mais novos da turma, sugerindo que comportamentos naturais da idade podem influenciar a identificação do problema.
O que a pesquisa descobriu sobre o mês de nascimento?
O estudo publicado em 2018 no New England Journal of Medicine, conduzido por pesquisadores ligados à Universidade Harvard, analisou dados de 407.846 crianças dos Estados Unidos, nascidas entre 2007 e 2009 e acompanhadas até 2015. A investigação comparou os diagnósticos de TDAH em estados que adotavam 1º de setembro como data de corte para a entrada na escola.
Nesses estados, foram registrados 85,1 diagnósticos por 10 mil crianças nascidas em agosto, contra 63,6 por 10 mil entre as nascidas em setembro. Isso representa uma taxa de diagnóstico 34% maior no grupo de agosto, além de uma frequência mais elevada de tratamento medicamentoso. A diferença não apareceu de forma estatisticamente significativa nos estados que utilizavam outras datas de corte, reforçando a importância da idade relativa dentro da turma.
Por que as crianças mais novas da turma podem ser confundidas com casos de TDAH?
Nos primeiros anos escolares, alguns meses de diferença podem representar mudanças importantes na capacidade de concentração, no controle dos impulsos e na adaptação às regras. Uma criança de cinco anos pode apresentar mais dificuldade para permanecer sentada ou esperar sua vez do que outra que está perto de completar seis anos, mesmo que ambas estejam dentro do desenvolvimento esperado.
Quando professores e familiares comparam crianças de idades diferentes como se todas apresentassem a mesma maturidade, a inquietação natural dos mais novos pode chamar mais atenção. Esse fenômeno é conhecido como efeito da idade relativa. Entretanto, os pesquisadores ressaltaram que o estudo não conseguiu determinar se os diagnósticos adicionais eram incorretos. A diferença também pode envolver casos verdadeiros de TDAH que precisam de acompanhamento.

O mesmo resultado vale para crianças brasileiras?
Não é possível aplicar diretamente o resultado de agosto às escolas brasileiras. No Brasil, a data de corte nacional para ingresso no ensino fundamental é 31 de março. Assim, nas turmas organizadas por essa regra, crianças nascidas perto do fim de março tendem a estar entre as mais novas, enquanto aquelas nascidas logo após a data de corte entram no ano seguinte e ficam entre as mais velhas.
Essa diferença mostra que o ponto principal não é o mês de nascimento isoladamente, mas a posição da criança em relação aos colegas. O estudo norte-americano não demonstrou que crianças brasileiras nascidas em março recebem mais diagnósticos de TDAH. Para estabelecer essa associação, seriam necessárias pesquisas que considerassem o calendário escolar e os registros de diagnóstico no Brasil.
Como diferenciar imaturidade natural dos sintomas de TDAH?
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões persistentes de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade que prejudicam o funcionamento da criança. Diferentemente de comportamentos ocasionais, os sintomas precisam ser avaliados considerando a idade, o desenvolvimento e as dificuldades observadas em diferentes ambientes.
Algumas situações que merecem investigação incluem:
- Desatenção persistente: dificuldade frequente para acompanhar instruções, concluir atividades e manter o foco em tarefas adequadas à idade.
- Agitação excessiva: inquietação que interfere repetidamente nas atividades escolares, familiares ou sociais.
- Impulsividade: dificuldade frequente para esperar a vez, interrompendo atividades e conversas.
- Prejuízos em diferentes ambientes: dificuldades presentes não apenas na escola, mas também em outras situações do cotidiano.
- Persistência dos sintomas: comportamentos que continuam ao longo do tempo e não se explicam apenas por uma fase passageira.
O Tua Saúde apresenta os principais sintomas do TDAH em crianças e adultos, mas a presença de alguns desses sinais, isoladamente, não confirma o transtorno. Problemas de sono, ansiedade e dificuldades de aprendizagem também podem afetar a atenção e o comportamento.

O que pais e professores devem considerar antes do diagnóstico?
A avaliação deve reunir informações da família, da escola e de profissionais de saúde, levando em conta a idade da criança em meses, o histórico de desenvolvimento e a intensidade dos prejuízos. Um neuropediatra ou psiquiatra infantil pode investigar os sintomas e identificar outras condições que precisem de atenção. Não existe um exame de sangue ou imagem capaz de confirmar sozinho o diagnóstico de TDAH.
O estudo reforça a necessidade de avaliar cada criança individualmente, sem transformar diferenças de maturidade em diagnósticos automáticos. Ao mesmo tempo, ser um dos alunos mais novos da turma não exclui a possibilidade de TDAH verdadeiro. Quando existem dificuldades persistentes, a investigação cuidadosa permite identificar as necessidades da criança e oferecer apoio adequado, evitando tanto diagnósticos precipitados quanto atrasos no cuidado.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica. Crianças com dificuldades persistentes de atenção, comportamento ou aprendizagem devem receber acompanhamento individualizado de profissionais qualificados.









