Tomar café todos os dias pode ter uma relação diferente com o coração daquela que muitas pessoas imaginam. Uma pesquisa com quase 450 mil participantes identificou que o consumo habitual de duas a três xícaras por dia estava associado a um menor risco de arritmias e doenças cardiovasculares. O resultado contraria a ideia de que a bebida necessariamente prejudica os batimentos cardíacos, mas não significa que aumentar o consumo seja recomendado para todas as pessoas.
O que o estudo descobriu sobre café e arritmias?
A pesquisa, publicada em 2022 na revista European Journal of Preventive Cardiology, analisou dados de 449.563 participantes do UK Biobank, um grande banco de informações de saúde do Reino Unido. Os voluntários tinham idade mediana de 58 anos e foram acompanhados por aproximadamente 12 anos e meio.
Durante esse período, 30.100 participantes receberam diagnóstico de alguma arritmia cardíaca. Após considerar fatores como idade, tabagismo, diabetes e hipertensão, os pesquisadores observaram que quem consumia duas a três xícaras de café por dia apresentava risco aproximadamente 9% menor de desenvolver arritmias em comparação com quem não bebia café. A associação também apareceu para doenças cardiovasculares, embora os resultados tenham variado conforme o tipo e a quantidade da bebida.
Por que o café pode ter uma relação favorável com o coração?
A cafeína é conhecida por seu efeito estimulante e pode aumentar temporariamente a pressão arterial ou tornar os batimentos mais perceptíveis, especialmente em pessoas sensíveis. Entretanto, o café contém outras substâncias biologicamente ativas, incluindo compostos antioxidantes, como os ácidos clorogênicos, que podem participar de processos relacionados à saúde cardiovascular.
Os pesquisadores levantaram a possibilidade de que esses componentes contribuam para os resultados observados. Contudo, o estudo foi observacional: acompanhou hábitos e diagnósticos, sem determinar quanto café cada participante deveria consumir. Por isso, não é possível afirmar que a bebida tenha causado a redução do risco. Outros hábitos e características dos participantes podem ter influenciado as associações encontradas.

Café coado, solúvel ou descafeinado fazem diferença?
O estudo também comparou diferentes tipos de café, mostrando que os resultados não foram idênticos. Embora as três versões tenham apresentado associação com menor risco cardiovascular, a relação com arritmias variou.
- Café moído: o consumo de uma a cinco xícaras diárias esteve associado a menos diagnósticos de arritmia, com o menor risco observado entre quatro e cinco xícaras.
- Café solúvel: também apresentou associação favorável, com o menor risco de arritmia entre duas e três xícaras por dia.
- Café descafeinado: esteve associado a menor risco de doenças cardiovasculares, mas não apresentou redução significativa no risco de arritmias.
Essas diferenças não demonstram que uma preparação seja capaz de prevenir doenças cardíacas. Também não justificam aumentar o consumo para quatro ou cinco xícaras, especialmente porque a quantidade de cafeína muda conforme o tamanho da porção, a concentração e o preparo.
Quem sente palpitações precisa parar de tomar café?
Não necessariamente. Sentir o coração bater mais rápido, mais forte ou parecer falhar depois do café pode acontecer, mas nem toda palpitação representa uma arritmia cardíaca. A resposta à cafeína varia entre as pessoas e pode ser influenciada pelo sono, pelo estresse, por medicamentos e pela quantidade consumida.
Quem percebe palpitações após beber café pode observar se os episódios se repetem e conversar com um médico sobre a necessidade de reduzir a ingestão. Para adultos saudáveis, até 400 mg de cafeína por dia costuma ser considerado um limite que não está associado a efeitos adversos importantes na maioria das pessoas, mas isso não representa uma meta de consumo. Gestantes, pessoas com determinadas doenças cardíacas e indivíduos mais sensíveis podem precisar de limites menores.

Vale a pena começar a tomar café para proteger o coração?
Os resultados não justificam começar a beber café com a finalidade de prevenir arritmias ou doenças cardiovasculares. Para quem já consome a bebida e a tolera bem, quantidades moderadas podem fazer parte de uma alimentação equilibrada. Também é importante considerar outras fontes de cafeína, como energéticos, chás e suplementos, que podem aumentar a ingestão total sem que a pessoa perceba.
Palpitações frequentes, prolongadas ou que aparecem sem uma causa evidente merecem avaliação médica. Quando acompanhadas de dor no peito, falta de ar importante, desmaio ou tontura intensa, exigem atendimento urgente. O café não substitui medidas comprovadas de proteção cardiovascular, como atividade física regular, alimentação equilibrada e controle da pressão arterial.
Importante: este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica. Pessoas com arritmias diagnosticadas ou sintomas cardíacos devem buscar orientação profissional sobre o consumo de cafeína.









