Sentir-se sozinho durante uma fase difícil não parece ter o mesmo significado para a saúde que conviver com esse sentimento por anos. Um estudo liderado por pesquisadores da Harvard T.H. Chan School of Public Health encontrou que adultos com 50 anos ou mais que apresentaram solidão persistente tiveram risco 56% maior de sofrer um AVC do que aqueles que mantiveram níveis baixos de solidão. Como a pesquisa foi observacional, o resultado mostra uma associação e não prova que a solidão seja a causa direta do AVC.
Como os pesquisadores chegaram ao aumento de 56% no risco?
O estudo publicado em 2024 na revista eClinicalMedicine utilizou dados do Health and Retirement Study, uma pesquisa de acompanhamento de adultos dos Estados Unidos. Inicialmente, foram avaliadas 12.161 pessoas com 50 anos ou mais e sem histórico de AVC. A solidão foi medida por meio de perguntas padronizadas sobre a sensação de falta de companhia, exclusão e isolamento.
Cerca de quatro anos depois, 8.936 participantes responderam novamente às perguntas. Entre eles, ocorreram 601 AVCs durante os seis a oito anos seguintes de acompanhamento. Quem apresentou níveis elevados de solidão nas duas avaliações teve risco 56% maior de AVC em comparação com quem permaneceu com níveis baixos.
O resultado pode ser explicado apenas por depressão ou isolamento social?
Os pesquisadores levaram em consideração diversos fatores que também poderiam influenciar o risco de AVC, incluindo idade, sexo, renda, escolaridade, atividade física, índice de massa corporal, tabagismo, consumo de álcool, diabetes, hipertensão e doenças cardíacas.
A associação com a solidão persistente também permaneceu quando foram considerados sintomas depressivos e isolamento social. Isso é relevante porque solidão e isolamento não são exatamente a mesma coisa. Uma pessoa pode ter poucos contatos sociais sem se sentir solitária, enquanto outra pode conviver com familiares e amigos e ainda sentir falta de conexão ou pertencimento.

Solidão passageira também aumentou o risco de AVC?
O estudo dividiu os participantes em quatro grupos: solidão consistentemente baixa, solidão que desapareceu, solidão de início recente e solidão persistentemente alta. Apenas o grupo com níveis elevados nas duas avaliações apresentou aumento estatisticamente significativo no risco de AVC depois dos ajustes realizados.
Nos grupos em que a solidão apareceu apenas em uma das avaliações, o risco estimado também foi numericamente maior, mas os resultados não alcançaram significância estatística. Portanto, não é correto afirmar que uma fase passageira de solidão esteja comprovadamente ligada ao aumento do risco. Os próprios autores destacam que os achados apontam principalmente para a importância da persistência do sentimento ao longo do tempo.
Por que a solidão pode estar relacionada à saúde cardiovascular?
O estudo não foi desenvolvido para provar qual mecanismo provoca essa associação. Existem hipóteses envolvendo estresse prolongado, alterações fisiológicas e comportamentos relacionados à saúde, mas não é possível concluir a partir desses dados que reduzir a solidão, isoladamente, evitará um AVC.
A Harvard T.H. Chan School of Public Health ressalta que a pesquisa reforça a necessidade de acompanhar a solidão ao longo do tempo, especialmente em adultos mais velhos. Para familiares, mudanças após viuvez, aposentadoria, perda de mobilidade ou afastamento da convivência social podem ser momentos em que vale prestar mais atenção ao bem-estar emocional.

O que familiares podem observar em pais e parentes mais velhos?
Mais do que contar quantas visitas a pessoa recebe, é útil perguntar como ela se sente em relação aos próprios vínculos. Relatos frequentes de falta de companhia, sensação de exclusão ou perda de conexão, principalmente quando persistem por meses ou anos, merecem atenção. Manter contato, facilitar atividades sociais possíveis e procurar ajuda profissional quando houver sofrimento emocional podem fazer parte do cuidado, sem substituir o controle dos fatores já conhecidos de risco cardiovascular.
Também é essencial reconhecer os sinais de AVC. Fraqueza ou dormência repentina em um lado do corpo, boca torta, dificuldade para falar, alterações súbitas da visão, equilíbrio ou consciência são sinais de emergência e exigem atendimento imediato, independentemente de a pessoa apresentar solidão ou qualquer outro fator de risco.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento realizado por profissionais de saúde.









