Uma inteligência artificial desenvolvida por pesquisadores do Imperial College London, da Universidade Técnica de Munique e da Universidade de Edimburgo conseguiu analisar tomografias do cérebro para estimar há quanto tempo um AVC isquêmico começou e o grau de progressão da lesão. Nos testes, o modelo foi aproximadamente duas vezes mais preciso que o método de referência usado para estimar a idade da lesão na tomografia. A informação pode ser especialmente útil quando não se sabe exatamente quando os sintomas começaram.
O que a inteligência artificial procura na tomografia?
No AVC isquêmico, um vaso sanguíneo é obstruído e parte do cérebro deixa de receber sangue adequadamente. Conforme o tempo passa, a região lesionada sofre alterações que podem aparecer na tomografia computadorizada sem contraste. Métodos convencionais usam principalmente diferenças de intensidade da imagem para tentar estimar quanto a lesão já evoluiu.
A nova ferramenta vai além. O estudo publicado em 2024 na npj Digital Medicine descreve um modelo de aprendizado profundo que analisa características da lesão, incluindo sua intensidade e textura, para estimar tanto o tempo cronológico desde o início do AVC quanto a chamada idade biológica da lesão, relacionada ao quanto o tecido já progrediu para um dano irreversível.
Como os pesquisadores testaram se a IA era mais precisa?
O desenvolvimento utilizou centenas de tomografias de pessoas com AVC isquêmico cujo intervalo entre o início dos sintomas e o exame era conhecido. Depois, o método foi validado em conjuntos independentes, com 1.945 tomografias nas quais havia uma lesão isquêmica visível. Isso permitiu comparar as estimativas produzidas pela IA com métodos baseados nas alterações de intensidade observadas na tomografia.
Para estimar o tempo desde o início do AVC, o modelo alcançou um coeficiente de determinação de 0,58, contra 0,32 do melhor modelo convencional usado na comparação. Os autores concluíram que a análise por aprendizado profundo foi aproximadamente duas vezes mais precisa para estimar a idade cronológica e biológica das lesões. Isso não significa, porém, que a ferramenta consiga informar a hora exata em que cada AVC ocorreu.

Por que saber quando o AVC começou faz tanta diferença?
O tempo influencia quais tratamentos podem ser utilizados com segurança. As diretrizes de 2026 da American Heart Association e American Stroke Association recomendam trombólise intravenosa com alteplase ou tenecteplase para pacientes elegíveis dentro da janela de 4,5 horas. Quanto antes o tratamento é realizado, maior tende a ser o benefício.
Essa janela, porém, não é uma fronteira absoluta para todos os tratamentos. Pessoas selecionadas com horário desconhecido ou que chegam mais tarde podem ser candidatas à trombólise quando exames avançados mostram tecido cerebral ainda recuperável. A trombectomia, procedimento que retira o coágulo por cateter em determinados AVCs causados pela obstrução de grandes vasos, também pode ser realizada em pacientes selecionados até 24 horas após o início dos sintomas.
Por que essa tecnologia pode ser útil em quem acorda com um AVC?
Nem sempre é possível perguntar ao paciente a que horas o AVC começou. Algumas pessoas acordam já com os sintomas, enquanto outras apresentam dificuldade para falar ou lembrar o momento exato. Além disso, duas pessoas que sofreram um AVC no mesmo intervalo de tempo podem apresentar diferentes graus de lesão devido a características da circulação sanguínea e dos vasos cerebrais.
É justamente nesse ponto que estimar a idade biológica da lesão pode acrescentar informação. Segundo os pesquisadores, a IA mostrou associação mais forte com medidas de tecido cerebral potencialmente recuperável e com a expansão posterior da lesão do que as comparações convencionais. Ainda assim, o algoritmo foi estudado como ferramenta de apoio e não substitui a avaliação médica nem os outros exames necessários para decidir o tratamento.

O que essa descoberta muda para quem apresenta sintomas de AVC?
Por enquanto, o resultado representa uma possibilidade de aprimorar a avaliação hospitalar, e não uma razão para esperar por uma tecnologia específica. Diante de boca torta, perda repentina de força ou sensibilidade em um lado do corpo, dificuldade para falar, alteração súbita da visão ou do equilíbrio, é necessário buscar atendimento imediatamente. O Tua Saúde reúne os principais sinais de AVC e como agir diante da suspeita.
Quanto mais cedo a pessoa chega ao hospital, maiores são as possibilidades de avaliação e tratamento adequado. Mesmo com avanços capazes de identificar tecido cerebral ainda recuperável em algumas pessoas que chegam mais tarde, a recomendação continua sendo não esperar os sintomas melhorarem: no Brasil, diante de suspeita de AVC, deve-se acionar o SAMU pelo número 192.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Suspeita de AVC é uma emergência e exige atendimento imediato.









