Refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos, macarrão instantâneo e muitas refeições prontas fazem parte de uma categoria de alimentos cada vez mais estudada. Uma grande revisão publicada no BMJ em 2024 encontrou associação entre maior consumo de ultraprocessados e diferentes problemas de saúde, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e ansiedade. Os resultados são importantes, mas não significam que esses produtos, isoladamente, sejam a causa direta de cada uma dessas doenças.
O que a revisão do BMJ encontrou?
Os pesquisadores realizaram uma revisão guarda-chuva, tipo de trabalho que reúne resultados de revisões sistemáticas e meta-análises já publicadas. A análise publicada no BMJ reuniu 45 análises combinadas e dados de cerca de 9,9 milhões de participantes. Maior exposição a ultraprocessados foi associada a resultados desfavoráveis em 32 dos 45 desfechos de saúde avaliados.
Entre as associações com evidências consideradas mais consistentes pelos pesquisadores estavam maior risco de mortalidade relacionada a doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e transtornos mentais comuns, incluindo ansiedade. Também foram encontradas associações com mortalidade por todas as causas, depressão, obesidade e alterações relacionadas ao sono, embora a força e a qualidade das evidências variassem entre os resultados.
O que são alimentos ultraprocessados?
Ultraprocessados não são simplesmente todos os alimentos que passaram por alguma transformação industrial. Eles são formulações produzidas principalmente com substâncias extraídas ou modificadas de alimentos e frequentemente contêm ingredientes pouco usados em uma cozinha doméstica, como aromatizantes, corantes, emulsificantes e realçadores de sabor.
Entre os exemplos comuns do dia a dia estão:
- refrigerantes e algumas bebidas adoçadas;
- biscoitos recheados e salgadinhos de pacote;
- macarrão e sopas instantâneas;
- nuggets, salsichas e outros produtos formulados de carne;
- cereais matinais açucarados;
- algumas refeições congeladas prontas para aquecer;
- certos iogurtes adoçados e aromatizados.
O Tua Saúde detalha como identificar alimentos ultraprocessados e diferenciá-los dos processados, além de apresentar exemplos encontrados no supermercado.

Quanto maior o consumo, maior foi o risco?
Para alguns desfechos, os pesquisadores encontraram uma relação de dose e resposta. No caso do diabetes tipo 2, por exemplo, cada aumento de 10% na participação dos ultraprocessados na alimentação foi associado a um risco cerca de 12% maior de desenvolver a doença. A revisão também encontrou associação entre maior consumo e mortalidade cardiovascular, além de maior ocorrência de ansiedade nos estudos avaliados.
Isso não quer dizer que comer um biscoito ou uma refeição pronta provoque diabetes ou doença cardíaca. Os estudos analisaram padrões alimentares e diferenças de consumo entre grupos ao longo do tempo. Além disso, vários resultados foram classificados como evidência de qualidade baixa ou muito baixa pelo sistema GRADE, o que exige cautela ao interpretar os números.
Por que não dá para dizer que ultraprocessados causam essas doenças?
Grande parte das evidências reunidas é observacional. Isso significa que pesquisadores acompanham o que as pessoas comem e verificam quais problemas de saúde aparecem, mas outros fatores podem contribuir para as associações. Pessoas que consomem mais ultraprocessados, por exemplo, podem apresentar diferenças de renda, atividade física, sono, tabagismo ou do restante da alimentação.
Também existem hipóteses para explicar parte das associações: alguns desses produtos concentram sódio, açúcares, gorduras e calorias, fornecem pouca fibra e podem substituir alimentos in natura ou minimamente processados. Os próprios autores da revisão ressaltaram, porém, a necessidade de mais pesquisas para compreender os mecanismos envolvidos e esclarecer melhor relações de causa e efeito.

É necessário eliminar todo ultraprocessado da alimentação?
Não é preciso interpretar os resultados como uma regra de “nunca mais comer”. Uma estratégia prática é observar quanto esses produtos ocupam da alimentação e reduzir a frequência quando eles estão substituindo diariamente frutas, verduras, feijão, cereais, ovos, carnes e preparações feitas com alimentos pouco processados.
Trocas graduais costumam ser mais viáveis, como substituir refrigerante por água em parte das refeições, alternar lanches de pacote com frutas e preparar mais refeições simples em casa. O que os estudos avaliam principalmente é o padrão habitual de consumo, e não um alimento ultraprocessado ingerido ocasionalmente.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um médico ou nutricionista.









