Nem toda pessoa que pode doar tecidos ou outros órgãos pode também doar o coração. No Brasil, para que o coração de um doador falecido seja destinado ao transplante, é necessário que a morte encefálica tenha sido confirmada e que a circulação ainda esteja sendo mantida no hospital. Isso permite preservar o órgão até a retirada, mas só acontece depois de um protocolo rigoroso que confirma de forma irreversível a morte do paciente.
Por que o coração não pode ser doado depois de qualquer tipo de morte?
O coração precisa receber continuamente sangue e oxigênio para preservar suas células. Quando uma pessoa morre após uma parada cardiorrespiratória, essa circulação já foi interrompida. No modelo adotado atualmente no Brasil, o Ministério da Saúde informa que, nessa situação, podem ser doados determinados tecidos, enquanto órgãos como o coração dependem de um doador com morte encefálica que não tenha apresentado parada cardíaca.
Por isso, a doação de órgãos após a morte depende não apenas da vontade de doar, mas também das circunstâncias do óbito, das condições dos órgãos e de uma avaliação médica cuidadosa.
Como o coração pode continuar batendo se a pessoa morreu?
A morte encefálica significa a perda completa e irreversível das funções do encéfalo, incluindo estruturas responsáveis pela respiração. Ela é diferente do coma, que pode ser reversível. Depois de confirmada a morte encefálica, a pessoa está clínica e legalmente morta, mesmo que o tórax ainda se movimente com o aparelho de ventilação e o coração continue batendo temporariamente.
Isso acontece porque o coração possui atividade elétrica própria e pode continuar se contraindo enquanto recebe oxigênio. O ventilador mantém a entrada de oxigênio nos pulmões e medicamentos podem ser necessários para sustentar a pressão e a circulação. O Sistema Nacional de Transplantes explica que a morte encefálica é definitiva e que esses recursos apenas permitem manter os órgãos funcionando por um período limitado.

Como os médicos têm certeza de que ocorreu morte encefálica?
O diagnóstico não é feito apenas porque o paciente está inconsciente ou depende de aparelhos. Antes de iniciar o protocolo, é necessário verificar condições específicas, como a existência de uma lesão encefálica conhecida e irreversível e a ausência de situações tratáveis que possam confundir a avaliação.
De acordo com os critérios regulamentados pelo Conselho Federal de Medicina, a confirmação envolve etapas independentes e padronizadas:
- dois exames clínicos realizados por médicos diferentes e capacitados;
- avaliação da ausência dos reflexos relacionados ao tronco encefálico;
- um teste de apneia para verificar a ausência de movimentos respiratórios espontâneos;
- um exame complementar capaz de demonstrar ausência de atividade ou de circulação sanguínea encefálica, conforme os métodos previstos no protocolo.
A Resolução do CFM que estabelece os critérios de determinação da morte encefálica também determina requisitos de capacitação dos médicos envolvidos. Os profissionais responsáveis pelo diagnóstico não integram a equipe que fará a retirada ou o transplante do órgão.
A morte encefálica significa que o coração poderá ser doado?
Não necessariamente. Ela torna possível avaliar a doação de órgãos, mas cada órgão precisa ser examinado separadamente. Para decidir se um coração pode ser utilizado, as equipes consideram condições clínicas do doador e características necessárias para que aquele órgão possa ser transplantado com segurança em determinado receptor.
Podem ser avaliados, entre outros fatores:
- funcionamento e estrutura do coração;
- histórico médico e causa da morte;
- presença de determinadas infecções ou outras doenças;
- compatibilidade com possíveis receptores;
- condições para retirar, preservar e transportar o órgão dentro do tempo adequado.

Quando a família participa da decisão?
No Brasil, mesmo depois da confirmação da morte encefálica e da identificação de um potencial doador, a retirada de órgãos depende da autorização da família. Somente depois dessa autorização e das avaliações necessárias é que a central de transplantes coordena a distribuição dos órgãos e a mobilização das equipes responsáveis pela captação e pelo transplante.
Por isso, uma pessoa em morte encefálica não se torna automaticamente doadora de coração. O processo reúne confirmação rigorosa da morte, autorização familiar, avaliação das condições do órgão e identificação de um receptor adequado.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui orientações fornecidas pelas equipes médicas responsáveis por doação e transplante de órgãos.








