A ora-pro-nóbis ganhou o apelido de “carne dos pobres” por apresentar uma quantidade de proteína incomum para uma folha e por fazer parte da alimentação tradicional de algumas regiões brasileiras. Mas isso não significa que uma porção da planta forneça tanta proteína quanto carne, ovos ou outras fontes mais concentradas. A diferença fica mais clara quando se observa se os estudos analisaram folhas frescas, cozidas ou desidratadas.
Por que a ora-pro-nóbis ficou conhecida como “carne dos pobres”?
A fama não surgiu completamente sem fundamento. Um estudo da Universidade Federal de Viçosa sobre o valor nutritivo da ora-pro-nóbis encontrou teores de proteína de 17,4% e 25,5% em amostras de folhas analisadas, além de digestibilidade média de 85%. Os pesquisadores também identificaram aminoácidos essenciais na planta.
Décadas depois, outras pesquisas continuaram apontando um conteúdo proteico relevante. Uma revisão sobre as características nutricionais da Pereskia aculeata descreveu cerca de 23% de proteína nas folhas em base seca. É justamente a expressão “base seca” que ajuda a entender por que esses números não podem ser comparados diretamente com uma porção da folha fresca no prato.
Então a ora-pro-nóbis tem 20% ou mais de proteína?
Não necessariamente na forma em que ela é consumida. Quando a folha é desidratada, grande parte da água é retirada e os nutrientes ficam mais concentrados. Por isso, valores próximos de 20% ou 25% encontrados em matéria seca não significam que 100 g de folhas frescas tenham 20 ou 25 g de proteína.
O próprio conteúdo nutricional da ora-pro-nóbis mostra essa diferença na prática: 100 g da planta cozida fornecem cerca de 3 g de proteína. Assim, ela pode contribuir para a ingestão do nutriente, mas seria necessário consumir uma quantidade muito grande da folha para obter a mesma concentração encontrada em fontes proteicas tradicionais.

Por que ela ainda chama atenção dos pesquisadores?
Mesmo sem substituir a carne, a ora-pro-nóbis tem um teor proteico interessante para uma hortaliça. Pesquisas da Unicamp também vêm explorando essa característica. Em 2026, por exemplo, um estudo divulgado pela Universidade Estadual de Campinas utilizou farinha da planta justamente por seu conteúdo elevado de proteína.
Além da quantidade total, trabalhos científicos investigam aspectos como aminoácidos e aproveitamento das proteínas. Entre os pontos que ajudam a entender o interesse pela planta estão:
- teor proteico superior ao de muitas folhas quando analisadas em matéria seca;
- presença de diferentes aminoácidos, inclusive essenciais;
- possibilidade de transformar as folhas desidratadas em farinha mais concentrada;
- presença adicional de fibras, vitaminas e minerais.
A ora-pro-nóbis pode substituir carne, ovos ou feijão?
Não é adequado fazer uma substituição direta apenas olhando o percentual de proteína encontrado em uma análise de folha seca. A quantidade efetivamente consumida, a concentração do nutriente e o conjunto da alimentação precisam entrar na comparação. Uma porção comum de ora-pro-nóbis cozida fornece bem menos proteína que uma porção equivalente de carne.
Isso não torna a planta pouco nutritiva. Ela pode complementar refeições e aumentar a variedade alimentar, inclusive em dietas vegetarianas. Nesse caso, é mais útil combiná-la com fontes vegetais mais concentradas, como feijão, lentilha, grão-de-bico e soja, do que tratá-la como substituta isolada das proteínas de origem animal.

Vale a pena incluir a ora-pro-nóbis na alimentação?
Sim, desde que a expectativa esteja ajustada. O apelido “carne dos pobres” destaca uma característica verdadeira da planta, seu teor de proteína relativamente alto para uma folha, mas pode dar a impressão errada de equivalência nutricional com a carne. Na prática, a ora-pro-nóbis funciona melhor como complemento de uma alimentação variada.
O modo de preparo também muda a concentração de nutrientes. Folhas frescas ou cozidas contêm bastante água, enquanto farinhas e folhas desidratadas concentram proteína e outros componentes. Por isso, ao comparar números de pesquisas ou rótulos, é fundamental observar em qual forma da planta o valor foi medido.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um médico ou nutricionista, especialmente quando é necessário ajustar a ingestão de proteínas ou planejar uma alimentação vegetariana ou vegana.









