A sensação de ouvido tampado depois da piscina ou do mar não é apenas desconforto passageiro. Para quem já teve otite, a água retida no canal auditivo representa um risco maior, porque altera o pH natural da pele interna e cria o ambiente perfeito para bactérias e fungos se multiplicarem. Entender esse mecanismo ajuda a prevenir a chamada otite do nadador e a saber por que uma simples ponta de toalha protege mais que qualquer cotonete.
O que acontece dentro do canal auditivo?
O canal auditivo externo tem uma pele fina revestida por cerume, substância que mantém o pH levemente ácido e funciona como barreira natural contra microrganismos. Quando a água fica retida ali, especialmente após mergulhos repetidos, o cerume dilui e o pH se desloca para uma faixa mais neutra.
Essa mudança química é suficiente para enfraquecer a proteção da pele, favorecer coceira e permitir que bactérias como Pseudomonas aeruginosa se instalem. É o início da inflamação conhecida como otite externa, mais frequente em quem nada com frequência.
Por que quem já teve otite tem risco maior?
Episódios anteriores de inflamação deixam a pele do canal mais sensível e menos preparada para se defender. Pequenas alterações de umidade, por isso, já bastam para desencadear um novo quadro, mesmo sem exposição prolongada à água.
Além disso, condições como dermatite seborreica, eczema, uso frequente de fones intra-auriculares e manipulação do canal com objetos pontiagudos somam vulnerabilidades. Quem tem histórico de otite deve redobrar os cuidados preventivos no verão.

Como identificar que a otite está se instalando?
Os sintomas costumam aparecer em até dois ou três dias após o contato com a água e evoluem rapidamente. Fique atento aos sinais clássicos da otite do nadador:
- Coceira persistente dentro do canal auditivo, sinal costumeiro de início do quadro.
- Dor ao puxar o pavilhão da orelha ou ao pressionar o tragus, a saliência próxima à entrada do canal.
- Sensação de ouvido tampado ou plenitude auricular que não melhora com o tempo.
- Diminuição da audição no ouvido afetado, geralmente de forma leve.
- Secreção clara, amarelada ou purulenta saindo do canal.
- Vermelhidão e inchaço visíveis na entrada do ouvido.
- Dor que piora ao mastigar ou ao deitar sobre o lado afetado.
O que diz a ciência sobre a otite do nadador?
A relação entre exposição à água e otite externa está bem documentada em diretrizes internacionais. Segundo a diretriz Clinical practice guideline: acute otitis externa, publicada no periódico Otolaryngology-Head and Neck Surgery pela Academia Americana de Otorrinolaringologia, a otite externa aguda afeta aproximadamente uma em cada 123 pessoas por ano nos Estados Unidos, com umidade retida no canal auditivo e lesões por limpeza inadequada entre os principais fatores de risco.
O documento destaca ainda que o uso de cotonetes é desencorajado por remover o cerume protetor e provocar microlesões na pele, facilitando a entrada de agentes infecciosos. Essa recomendação vai contra o hábito mais comum nas residências brasileiras.

Como secar o ouvido e evitar a infecção?
A prevenção é simples e envolve pequenas mudanças de rotina depois de qualquer contato com água, especialmente para quem é mais sensível. Veja medidas eficazes recomendadas por otorrinolaringologistas, que vão além do que normalmente se faz na otite externa:
- Incline a cabeça para o lado após sair da água, permitindo que a gravidade ajude na drenagem natural.
- Use a ponta da toalha para secar apenas a parte externa do ouvido, nunca introduzindo dentro do canal.
- Evite cotonetes, grampos ou chaves, que empurram o cerume para dentro e causam pequenas lesões.
- Considere tampões de silicone para nadar em piscina, mar ou após episódios recentes de otite.
- Seque suavemente com secador no modo frio, mantendo distância segura de 30 centímetros.
- Procure um otorrinolaringologista se sentir coceira persistente, dor ou qualquer sintoma suspeito.
A automedicação com gotas auriculares deve ser evitada, principalmente em caso de histórico de perfuração do tímpano. Diante de dor, secreção ou perda auditiva, procure avaliação profissional o quanto antes para iniciar o tratamento adequado.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizado por um profissional de saúde qualificado. Em caso de sintomas persistentes ou recorrentes no ouvido, consulte um médico otorrinolaringologista.









