Em 2020, nos Estados Unidos, um homem de 54 anos estava em um restaurante de fast-food quando ofegou subitamente e perdeu a consciência. A equipe de emergência identificou fibrilação ventricular, iniciou a ressuscitação e realizou desfibrilação. A investigação publicada na descrição clínica do episódio associou a parada cardíaca ao consumo frequente de balas com sabor de alcaçuz nas três semanas anteriores.
A mudança alimentar passou despercebida no início
Antes dessas três semanas, o homem consumia balas macias de fruta. Ele então passou a comer balas com sabor de alcaçuz contendo ácido glicirrízico. Essa troca só apareceu durante a revisão da alimentação feita no hospital. O produto havia sido consumido de forma crônica, mas o resumo publicado não informa uma quantidade diária exata.
Produtos aparentemente simples podem conter glicirrizina, substância natural também chamada de ácido glicirrízico. Em excesso ou por períodos prolongados, ela pode favorecer hipocalemia, o termo clínico para uma concentração reduzida de potássio no sangue. Por isso, alimentos, chás, extratos e suplementos entram na investigação quando alterações eletrolíticas não têm uma causa evidente.
Os exames revelaram a origem da arritmia
Os socorristas registraram fibrilação ventricular, uma atividade elétrica desorganizada que impede o coração de bombear sangue adequadamente. No hospital, os exames mostraram potássio baixo importante e alterações compatíveis com distúrbio mineralocorticoide aparente, situação em que o organismo passa a reter sódio e eliminar potássio como se houvesse excesso de certos hormônios.
O diagnóstico final foi pseudo-hiperaldosteronismo induzido pelo consumo excessivo do produto. Nesse quadro, a ação da glicirrizina imita efeitos associados ao excesso de aldosterona, embora o problema não seja necessariamente uma produção elevada desse hormônio. A combinação entre perda de potássio e instabilidade elétrica contribuiu para a arritmia cardíaca e para a parada cardíaca registrada.

Como a glicirrizina interfere no coração?
No organismo, metabólitos do alcaçuz inibem a enzima 11β-HSD2, responsável por impedir que o cortisol ative receptores destinados principalmente à aldosterona. Quando essa proteção diminui, os rins aumentam a retenção de sódio e ampliam a perda urinária de potássio. O resultado pode incluir elevação da pressão, acúmulo de líquido e desequilíbrio eletrolítico.
Uma revisão científica publicada em setembro de 2023 descreveu esse mecanismo e relacionou a retenção de sódio e hipocalemia a complicações cardiovasculares graves. O achado ajuda a explicar a sequência observada no episódio, mas não transforma uma ocorrência isolada em regra. A redução acentuada do potássio altera a condução dos impulsos cardíacos e pode facilitar arritmia cardíaca, inclusive ritmos ventriculares capazes de anteceder uma parada cardíaca.
Quais sinais podem indicar uma complicação?
O potássio baixo pode não produzir sintomas no começo. Quando a queda se torna mais intensa, manifestações musculares e cardíacas podem aparecer. Nenhum sinal isolado confirma a causa, mas alguns achados justificam avaliação clínica e exames de eletrólitos:
- Fraqueza muscular, cãibras ou dificuldade incomum para realizar esforços.
- Palpitações, sensação de batimento irregular ou aceleração sem motivo claro.
- Tontura, desmaio ou perda repentina de consciência.
- Pressão arterial elevada associada a inchaço ou retenção de líquido.
- Ofegação súbita, dor no peito ou colapso, sinais que exigem atendimento de urgência.
Essas manifestações também podem ocorrer em diversas outras condições. O risco merece atenção especial quando existe consumo frequente de produtos com glicirrizina, uso de medicamentos que alteram eletrólitos ou histórico de doença renal e cardiovascular.
Como são conduzidos o tratamento e a prevenção?
A abordagem depende da gravidade, do eletrocardiograma e dos resultados laboratoriais. A equipe avalia a retirada da fonte de glicirrizina, a correção do potássio, o controle da pressão e a monitorização do ritmo cardíaco. Arritmias graves exigem suporte imediato. Informações sobre formas de consumo, contraindicações e possíveis reações estão reunidas em efeitos e riscos do alcaçuz.
- Revisar balas, chás, extratos, suplementos e fórmulas que possam conter ácido glicirrízico.
- Medir eletrólitos, especialmente potássio, quando houver suspeita de perda renal.
- Acompanhar pressão arterial, função renal e traçado elétrico do coração.
- Investigar medicamentos e doenças que aumentem a vulnerabilidade ao desequilíbrio.
- Manter acompanhamento até a normalização clínica e laboratorial definida pela equipe.
O prognóstico varia conforme a intensidade da hipocalemia, a duração da exposição e a rapidez do atendimento. Não é seguro tentar corrigir eletrólitos por conta própria, pois tanto a falta quanto o excesso de potássio podem provocar alterações perigosas nos batimentos.
O que ficou documentado após a emergência
Após a perda de consciência, o homem recebeu ressuscitação, desfibrilação e atendimento avançado. A avaliação hospitalar documentou o distúrbio eletrolítico e o pseudo-hiperaldosteronismo sugestivo de consumo excessivo de alcaçuz, complicado por fibrilação ventricular e parada cardíaca. Esses são os dados de evolução apresentados na publicação fornecida.
Palpitações persistentes, desmaio, ofegação repentina ou batimentos irregulares precisam de avaliação rápida. Pessoas que consomem produtos com ácido glicirrízico e apresentam pressão elevada, fraqueza ou potássio baixo também devem informar a exposição ao profissional, pois esse dado pode orientar os exames e a identificação de uma possível arritmia cardíaca.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o acompanhamento de um profissional de saúde. Se você apresenta sintomas ou tem dúvidas sobre sua condição, procure orientação médica.









