Sentir dor, câimbra ou queimação na panturrilha ao caminhar e notar que o desconforto some após alguns minutos de repouso é um padrão que muitas pessoas atribuem ao cansaço ou à idade. No entanto, quando esse sintoma se repete e limita a distância percorrida, pode ser um dos primeiros sinais de doença arterial periférica, uma condição que reduz o fluxo de sangue para os membros inferiores e aumenta o risco cardiovascular. Reconhecer esse padrão cedo faz diferença no tratamento e na prevenção de complicações.
O que é a doença arterial periférica e como ela surge?
A doença arterial periférica é o estreitamento ou a obstrução das artérias que levam sangue para as pernas, provocado principalmente pela aterosclerose, isto é, pelo acúmulo de placas de gordura, cálcio e tecido fibroso nas paredes dos vasos.
Com o fluxo reduzido, os músculos das pernas recebem menos oxigênio, especialmente durante o esforço. Isso explica por que os primeiros sintomas costumam aparecer durante caminhadas e melhoram com o repouso, quando a demanda muscular diminui.
Como reconhecer a claudicação intermitente?
O sintoma mais característico é chamado de claudicação intermitente, uma dor que surge após certa distância caminhando e desaparece com alguns minutos parado. Ela costuma afetar a panturrilha, mas pode acometer coxa ou glúteo, dependendo do local da obstrução arterial.
A distância até o início da dor tende a ser previsível e diminui conforme a doença progride. Caminhar mais rápido ou subir ladeiras antecipa o incômodo. Em casos avançados, a dor pode aparecer até em repouso, especialmente à noite, e pisos elevados costumam piorar o quadro.

Quais são os principais fatores de risco?
A doença arterial periférica compartilha os mesmos fatores de risco de outras condições ateroscleróticas, como infarto e AVC. Fique atento aos elementos que mais aumentam a probabilidade de desenvolver o problema:
- Tabagismo: principal fator modificável, acelera a formação de placas e piora a circulação nas pernas.
- Diabetes: o excesso de glicose danifica vasos e nervos, aumentando o risco de úlceras e amputação.
- Colesterol alto: favorece o depósito de gordura nas paredes das artérias.
- Hipertensão arterial: pressão elevada crônica lesiona o endotélio dos vasos.
- Idade acima de 60 anos: a prevalência sobe com o envelhecimento, chegando a 15 a 20% após os 70 anos.
- Histórico familiar e sedentarismo: reforçam o risco global de doença cardiovascular.
O que diz um estudo científico sobre a doença arterial periférica?
A relevância global do problema é bem documentada na literatura recente. Uma revisão narrativa intitulada Lower Extremity Peripheral Artery Disease Without Chronic Limb-Threatening Ischemia, publicada no periódico JAMA, atualizou as evidências sobre diagnóstico e manejo da doença nos membros inferiores.
Segundo o Lower Extremity Peripheral Artery Disease Without Chronic Limb-Threatening Ischemia publicado no JAMA, a doença atinge cerca de 230 milhões de pessoas no mundo e o índice tornozelo-braquial abaixo de 0,90 é o método não invasivo de referência para o diagnóstico, com alta especificidade para identificar estreitamento arterial significativo. A revisão também reforça que muitos pacientes apresentam sintomas atípicos ou permanecem assintomáticos, o que atrasa a investigação.

Como é feito o diagnóstico e o que fazer diante dos sintomas?
De acordo com diretrizes da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, o diagnóstico começa por avaliação clínica cuidadosa e é confirmado por exames simples e acessíveis. A conduta habitual envolve as seguintes etapas:
- Consulta com angiologista ou cirurgião vascular: anamnese, palpação dos pulsos e avaliação da pele, temperatura e feridas nos pés.
- Índice tornozelo-braquial (ITB): exame não invasivo que compara a pressão arterial no tornozelo com a do braço; valores abaixo de 0,90 confirmam a doença.
- Ultrassom Doppler: avalia o fluxo sanguíneo e localiza pontos de obstrução nas artérias das pernas.
- Controle dos fatores de risco: parar de fumar, controlar diabetes, colesterol e pressão arterial, além de adotar dieta equilibrada.
- Tratamento medicamentoso e exercício supervisionado: antiplaquetários, estatinas e programas de caminhada são a base do cuidado inicial; cirurgia ou angioplastia ficam reservadas a casos selecionados.
Quando não tratada, a doença aumenta significativamente o risco de infarto, AVC, feridas que não cicatrizam e, em casos graves, amputação. Por isso, dor persistente ao caminhar merece investigação, ainda mais em pessoas com fatores de risco vascular conhecidos. Uma avaliação médica direcionada esclarece a maioria dos casos.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação médica. Diante de dor persistente nas pernas ao caminhar, feridas que não cicatrizam ou outros sintomas descritos, procure um angiologista ou cirurgião vascular para diagnóstico e tratamento adequados.









