Ronco alto e frequente, especialmente quando acompanhado de pausas na respiração durante o sono, vai muito além de um simples incômodo para quem divide o quarto. Esse padrão pode ser uma pista silenciosa de apneia obstrutiva do sono, um distúrbio respiratório que interrompe o fluxo de oxigênio dezenas de vezes por noite, compromete a qualidade do descanso e eleva significativamente o risco de doenças cardiovasculares graves ao longo dos anos.
O que é apneia obstrutiva do sono e por que vai além do ronco?
A apneia obstrutiva do sono é caracterizada pelo colapso parcial ou total das vias aéreas superiores durante a noite, provocando pausas respiratórias que duram dez segundos ou mais e se repetem várias vezes por hora. O ronco surge como consequência da passagem turbulenta do ar por um espaço estreitado, mas nem todo ronco significa apneia.
O que diferencia o quadro é justamente a interrupção momentânea da respiração, seguida de um breve despertar cerebral que restabelece o fluxo de ar. Esse ciclo fragmenta o sono profundo e impede o descanso reparador, mesmo quando a pessoa acredita ter dormido a noite inteira.
Quais sintomas diurnos podem sinalizar apneia do sono?
Muitos pacientes procuram avaliação médica não pelo ronco em si, mas pelos sintomas que aparecem durante o dia como reflexo do sono fragmentado. Dor de cabeça matinal, cansaço persistente mesmo após oito horas na cama e sonolência excessiva ao volante ou em reuniões são queixas frequentes.
Também podem surgir dificuldade de concentração, irritabilidade, alterações de humor, boca seca ao acordar e episódios de apneia do sono percebidos por quem dorme ao lado. Quando esses sinais se combinam, a chance de haver um distúrbio respiratório noturno aumenta consideravelmente.

Como um estudo científico relaciona apneia do sono e risco cardiovascular?
As repetidas quedas na oxigenação do sangue durante os episódios de apneia forçam o coração e os vasos a trabalharem sob estresse contínuo, o que ao longo do tempo pode desencadear alterações estruturais e metabólicas relevantes. Segundo o estudo Perfil cardiovascular em pacientes com apneia obstrutiva do sono, publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia e indexado no Scielo, os pacientes com o distúrbio apresentaram maior prevalência de obesidade, hipertensão arterial, baixos níveis de HDL e aumento do diâmetro do átrio esquerdo em comparação ao grupo controle.
A pesquisa reforça que a apneia obstrutiva do sono é um fator de risco independente para complicações cardiovasculares, incluindo hipertensão de difícil controle, arritmias, infarto e acidente vascular cerebral, o que justifica a investigação precoce diante de sintomas sugestivos.
Quem tem maior risco de desenvolver apneia obstrutiva?
Embora a apneia do sono possa afetar qualquer pessoa em qualquer idade, alguns fatores aumentam de forma significativa a probabilidade de desenvolver o quadro. Identificar esses grupos ajuda a antecipar a investigação e evitar complicações. Entre os principais fatores de risco estão:
- Sobrepeso e obesidade, especialmente com acúmulo de gordura no pescoço
- Sexo masculino e idade acima dos 40 anos
- Circunferência cervical aumentada, acima de 40 cm em mulheres e 43 cm em homens
- Alterações anatômicas, como amígdalas hipertrofiadas, desvio de septo ou retrognatia
- Histórico familiar de apneia ou ronco intenso
- Menopausa, devido às mudanças hormonais que afetam o tônus muscular
- Consumo de álcool à noite e uso de sedativos ou relaxantes musculares
- Tabagismo, que provoca inflamação das vias aéreas

Como é feito o diagnóstico por polissonografia?
A polissonografia é o exame considerado padrão-ouro para o diagnóstico da apneia obstrutiva do sono, conforme diretrizes da Associação Brasileira do Sono e da Sociedade Brasileira de Pneumologia. Realizada em laboratório especializado ou, em alguns casos, com dispositivos portáteis em casa, ela monitora simultaneamente vários parâmetros ao longo da noite. Os principais itens avaliados são:
- Fluxo respiratório pelo nariz e pela boca
- Saturação de oxigênio no sangue durante toda a noite
- Movimentos torácicos e abdominais durante a respiração
- Frequência cardíaca e eletrocardiograma contínuo
- Atividade cerebral, ocular e muscular por eletrodos
- Posição corporal e ocorrência de ronco
O resultado é interpretado pelo Índice de Apneia e Hipopneia (IAH), que classifica o quadro em leve, moderado ou grave e orienta a escolha do tratamento, que pode incluir uso de CPAP, aparelhos intraorais, mudanças de estilo de vida ou, em casos específicos, cirurgia. Quem convive com ronco alto e cansaço diurno persistente deve procurar avaliação médica, preferencialmente com pneumologista, otorrinolaringologista ou especialista em medicina do sono, para investigação adequada e definição da conduta mais indicada.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um profissional de saúde qualificado. Sempre consulte um médico diante de sintomas persistentes.









