Começar estatina depois dos 75 anos pode valer a pena para alguns idosos, principalmente quando o risco de infarto ou AVC é alto. Mas a decisão não deve ser automática: precisa considerar idade biológica, fragilidade, outros remédios, expectativa de benefício e preferência do paciente.
O que muda após os 75 anos
A estatina reduz o colesterol LDL, conhecido como colesterol “ruim”, e ajuda a diminuir a formação de placas nas artérias. Em quem já teve infarto, AVC ou doença arterial, o benefício costuma ser mais claro, mesmo em idades avançadas.
A dúvida maior aparece na prevenção primária, quando a pessoa nunca teve evento cardiovascular. Nessa situação, o possível benefício precisa ser pesado contra polifarmácia, risco de efeitos adversos e tempo necessário para o remédio realmente evitar um problema.
O que diz o estudo científico em idosos
O estudo de emulação de ensaio-alvo Benefits and Risks Associated With Statin Therapy for Primary Prevention in Old and Very Old Adults, publicado no Annals of Internal Medicine, analisou dados de adultos de Hong Kong sem doença cardiovascular prévia.
A pesquisa incluiu 69.981 pessoas de 75 a 84 anos e 14.555 pessoas com 85 anos ou mais. Em 5 anos, iniciar estatina foi associado a menor incidência de doenças cardiovasculares, com redução absoluta de 1,20% entre 75 e 84 anos e 4,44% entre os maiores de 85 anos, sem aumento importante de miopatias ou disfunção hepática.

Quem pode se beneficiar mais
O benefício tende a ser maior quando o risco cardiovascular de base é alto. Por isso, o foco não deve ser apenas a idade, mas o conjunto de fatores que aumentam a chance de infarto, AVC ou insuficiência cardíaca.
- LDL muito alto ou colesterol persistentemente elevado;
- Diabetes, pressão alta ou doença renal crônica;
- Tabagismo atual ou histórico importante;
- Placas nas artérias detectadas em exames;
- Histórico familiar de infarto ou AVC precoce.
Quais riscos precisam entrar na conversa
As estatinas são geralmente bem toleradas, mas idosos podem ser mais sensíveis a interações medicamentosas e efeitos musculares. A dose inicial, o tipo de estatina e o acompanhamento devem ser individualizados.
- Dor ou fraqueza muscular, especialmente se intensa ou progressiva;
- Interações com remédios, como alguns antibióticos, antifúngicos e medicamentos cardíacos;
- Alterações no fígado, raras, mas que podem exigir exames;
- Risco pequeno de diabetes, mais relevante em quem já tem predisposição;
- Polifarmácia e fragilidade, quando simplificar tratamentos pode ser prioridade.

Como decidir com segurança
Para estatina idosos, a melhor decisão combina cálculo de risco, revisão dos exames, avaliação da funcionalidade e conversa franca sobre objetivos. Um idoso ativo, independente e com alto risco cardiovascular pode ter uma indicação diferente de alguém frágil, com múltiplas doenças avançadas.
Quem já usa estatina não deve suspender por conta própria, especialmente se teve infarto, AVC ou colocou stent. Para entender melhor colesterol e prevenção, veja também o conteúdo do Tua Saúde sobre colesterol alto.
A pergunta não é apenas “passou dos 75, deve tomar?”. A pergunta certa é se aquele paciente tem risco suficiente, tempo provável de benefício e segurança para usar a estatina sem piorar sua rotina ou qualidade de vida.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui a avaliação de um médico, especialmente cardiologista, geriatra ou clínico geral.









